sábado, 25 de agosto de 2012

Divagando sobre o sofrimento. Terceira parte.






Nesse terceiro momento de falatório sobre o sofrimento, temos algo que está além de nossa imaginação, seja ela sensitiva, seja ela mental.

O inferno, o purgatório e o paraíso são algo tão além de nossa imaginação que muitos resolveram simplesmente ignorá-lo. Seguem a filosofia esdrúxula de que "o que os olhos não veem o coração não sente". Sinto muito, mas o coração e outras partes vão sentir muito em um momento posterior.

O sofrimento o qual passamos aqui, nada mais é do que uma breve e remota preparação para um possível sofrimento no purgatório, esse sim infinitamente maior que o daqui. O do inferno ja passou disso.

Lembro-me de ler algo de Gertrud von Le Fort que dizia uma frase que nunca irei esquecer: “Felicidade só há no Céu e justiça só há no Inferno; nesta Terra, somente a Cruz”.

Muitos querem buscar a felicidade plena aqui. No mínimo vão dar com os burros n'água. Pelo menos seria bom se chegassem a esse estágio. A maioria morre tentando o impossível. Felicidade plena só em Deus. Não queira encontrar o amor maravilhoso que vai te fazer feliz para sempre como nos contos de fadas. Não seja tão pouco misericordioso como seu/sua esposo(a) cobrando dele(a) isso. Um ser humano não pode lhe dar plena felicidade. Felicidade plena só em Deus. Só Nele podemos dizer que chegamos a plena felicidade, isso para os que lá chegarem.

A mesma coisa podemos dizer dos que pretendem sistemas de governo que prometem o céu na terra. Não vão ter! O céu não descerá à terra pelo simples fato de um idealista dizer que assim o será. Cuidado com quem faz tais promessas. Cuidado com socialismos, comunismos e social-democracias que fazem esse tipo de compromisso impossível de cumprir.

Diametralmente oposto a isso, não queira que a justiça plena seja feita aqui. Aqui não é lugar de justiça, mas de injustiças. Não queira que um mero julgador humano, ridículo e limitado, parafraseando Raul Seixas, consiga atingir o ápice da justiça plena. Tal justiça só pode advir de Deus e em Deus.

O inferno passa a ser justiça plena uma vez que quem viveu uma vida querendo distância de Deus não pode ter outra coisa senão eterna distância Dele. A vontade é sua, não a de Deus. Deus apenas fez a sua vontade. Pra isso existe livre-arbítrio.

O grande problema de tudo isso é que a justiça plena de Deus cumprida no inferno é eterna. O sofrimento que lá existe não só é perene como a dor é infinita. Uma dor inimaginável de um fogo eterno que não consome, apenas queima sem nada poder apagar.

Não temos um Deus covarde, injusto e sádico como sugerem alguns e afirmam claramente outros. Temos apenas um Deus que ama tanto suas criaturas que poderia muito bem tê-las feito como marionetes, fazendo tudo o que Lhe apeteceria, contudo não foi esse tipo de criatura, limitada e refém de seu destino que Deus quis para o que tinha criado. Deus deu a Suas criaturas um sem número de habilidades e dons além de uma liberdade que poderia levá-lo a escolher seu destino da forma como lhe conviesse. O livre-arbítrio é nada menos que a liberdade que temos de negar estarmos presentes ao lado de Deus ou querermos ardentemente essa presença. Essa vontade é respeitada por Deus. Sempre é respeitada. A questão são as consequências.

Ouvi certa vez em um debate que se é mesmo assim, então Deus está fazendo "pegadinhas" conosco, afinal não sabemos como é estar longe de Deus, como é o inferno. Ora, como não sabemos?! Temos centenas de histórias, temos a Bíblia, temos a tradição, temos as revelações particulares (que ninguém é obrigado a acreditar, mas estão ai pra quem quiser ouvir) e temos esse texto que você está lendo. Como não sabe? A questão não é não saber. A questão é não querer que assim seja. É um probema único e exclusivo seu, não meu ou de Deus.

Por esses motivos a justiça do inferno é a única realmente plena, potente e total. O sofrimento dessa justiça é apenas o detalhe da distância de Deus. Quanto mais distante de Deus, maior o sofrimento, quanto mais perto, menor. Isso para os que já estão longe desse mundo e já cumpriram com suas missões.

O purgatório é outro estado de total purificação e toda purificação é dolorosa. Toda purificação é sofrível. Os sofrimentos do purgatório são mais leves que a justiça divina do inferno, isso sem dúvida, contudo não são mais leves que nada do que há de mais truculento nesse mundo. O purgatório é o estágio final de purificação para estarmos definitivamente de frente para Deus, limpos de todo o mal, de todo o pecado. Essa limpeza é dolorosa e o sofrimento inevitável. O fogo novamente purificará o que está impuro.

Po último, temos a cruz desse mundo. Nada mais terno e bonito. Se conseguir ver beleza e ternura na cruz de Cristo e na sua própria, estará preparado para entender o sentido do sofrimento. Sofra aqui o que for necessário, afinal o sofrimento no purgatório ou no próprio inferno é infinitamente maior. As cruzes que precisamos carregar por nosso caminho são nada menos que presentes de Deus a uma alma a quem Ele muito ama. Quanto mais cruzes, mais amor. Quanto mais sofrimento, mais salvação. Não foi a toa que Cristo sofreu tanto na cruz. Ele não precisava de salvação; é Deus e não precisa ser salvo, mas o mundo precisava. O pecado do mundo foi tão grande que o sofrimento de homens não seria o suficiente. Era preciso o sofrimento do próprio Deus. Somente o sangue de Deus poderia pagar o tamanho erro do ser humano em querer tomar o lugar desse próprio Deus através do pecado.

Fugir do sofrimento só acarreta fuga de Deus. Não que seja preciso uma vida de profundos sofrimentos, afinal temos santos e santas que eram ricos e se salvaram. Mas afinal, dinheiro é mesmo sinal de profunda felicidade?

Um comentário:

André Quirino disse...

Gertrude Von le Fort é responsável pela primeira montagem do clássico do teatro francês “Sob o Sol de Satã”. O que poucos sabem é que o autor da peça, Georges Bernanos, esteve, entre os anos 1938 e 1945, no Brasil. A É Realizações Editora, que tem publicado traduções das obras de Bernanos, acaba de lançar “Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945)”. Nesse estudo, Sébastien Lapaque conta detalhes da passagem do escritor pelo país, sua revolta contra a mediocridade dos intelectuais e a ascensão do totalitarismo, sua amizade com pensadores brasileiros e a visita que Stefan Zweig lhe fez à véspera de se suicidar.

Matérias na Folha de S. Paulo a propósito do lançamento do livro:
“Descendentes de Bernanos estão espalhados pelo Brasil”: http://goo.gl/ymS4lL
“Sob o sol de Barbacena”: http://goo.gl/O8iFve

Para ler algumas páginas de “Sob o Sol do Exílio”: http://goo.gl/6hAEOM

Confira também:
Diálogos das Carmelitas: http://goo.gl/Yy3ir3
Sob o Sol de Satã: http://goo.gl/qo18Uu
Diário de um Pároco de Aldeia: http://goo.gl/ISErLc
Nova História de Mouchette: http://goo.gl/BjXsgm
Joana, Relapsa e Santa: http://goo.gl/CAzTTk
Um Sonho Ruim: http://goo.gl/Kd091z

ANDRÉ GOMES QUIRINO
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