segunda-feira, 14 de maio de 2018

Só o humilde é capaz.


O humilde só pode ser conceituado como aquele homem capaz de fazer grandes coisas. É o humilde que é capaz de fazer coisas ousadas. E ele só é capaz de grandes coisas e de tamanha ousadia por que é humilde e não porque é homem.

Não são todos os homens que são capazes de grandes coisas e de grande ousadias. O humilde é capaz disso por que reconhece a sua pequenez em frente a todas essas grandes coisas e ousadias. Aquele homem que não detém humildade tenta ver a uma distância tão grande e tão além das possibilidades que a sua ínfima visão humana pode alcançar, que não consegue perceber os detalhes que o levariam ao que era seu objetivo inicial. Já aquele homem humilde não pretende alcançar o que está além do seu olhar e por isso mesmo acaba percorrendo os caminhos corretos, aprendendo com cada passo e descobrindo que pode ir muito mais longe do que imaginava em um primeiro momento. 

O humilde não pensa no quinquagésimo passo, mas apenas no próximo porque muitas vezes e, sinceramente, se acha incapaz de dar mais do que um passo de cada vez ou simplesmente não se preocupa com isso porque seu ego não é inflado.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Véu, missa Tridentina e outras obscuridades.


Hoje eu pretendo começar escrevendo este texto de uma forma diferente do que é o meu estilo. Pois é, eu tenho um estilo. Mas vamos ao que interessa. 

Normalmente eu procuro me justificar, quando realmente o faço, só no final do texto e de forma mais conclusiva possível, mas hoje vamos fazer isso logo no início do texto, caso contrário vai ter gente que não vai passar do terceiro parágrafo.

Bom, a justificativa é que eu não sou católico tradicionalista, nem católico progressista, muito menos católico carismático ou católico teelista. A verdade é que eu acredito que após dizer-se católico não cabe nenhum adjetivo na frente.

Sabendo disso e acreditando que um monte de criticas virão assim mesmo, vamos aos fatos. Não há nada que eu ache mais estranho do que as críticas veementes a quem queira usar véu o queira assistir a missa tridentina ou casar-se nesse rito.

As motivações para esse tipo de crítica são as mais diversas: na verdade estimulam a vaidade; não passa de modinha; são pessoas querendo ser mais católicas que o Papa; estão todos querendo aparecer... e por aí vai.

Não nego que tudo isso possa acontecer. Não nego de forma alguma que várias mulheres que usam véu deturpam seu uso deixando a modéstia e a humildade de lado e usando por simples modismo e vaidade. Aliás, que fique bem claro que a vaidade espiritual é a pior delas.

Não nego também que muita gente tem assistido a missas tridentinas e queiram casar-se nesse rito por simples moda. Eu tenho certeza que muitos seguem esse caminho não só por moda mas também por achar-se mais dignos que os demais. Fora aquela pontinha de gnosticismo quando se sentem "os Iluminados" com saber que os outros ainda não alcançaram.

É óbvio que tudo isso existe e nem é tão difícil de achar. Mas também é óbvio que não dá para jogar todo mundo no mesmo saco e dizer que é tudo a mesma coisa. 

Da mesma forma que conheço pessoas que usam véu por modismo ou por vaidade, também conheço uma série de mulheres que usam véu e que realmente buscam aquela humildade e modéstia que caracterizam o uso correto.

Conheço também uma série de pessoas que frequentam a missa no rito extraordinário porque realmente se sentem mais envolvidos no clima místico e contemplativo através desse rito. Aliás, não foi por esse motivo que o Papa Bento XVI promulgou o Motu Proprio que liberou a celebração da missa no rito extraordinário para todos os sacerdotes que quiserem celebra-lo, sendo desnecessária autorização do Bispo?

Como diz um velho ditado que ainda corre por aí: não se pode jogar a criança fora junto com a água suja do banho. O que não é intrinsecamente mau precisa ter o que é bom separado, mesmo que para isso seja preciso esperar um tempo. Não é exatamente isso que Jesus nos ensina na parábola do joio e do trigo? Não é preciso deixar crescer os dois juntos para separar só ao final, justamente para não se arrancar o trigo junto com o joio e jogue tudo fora?

O mais impressionante disso tudo é que eu não vejo tanto empenho em condenar e atacar coisas que são frontalmente contra a doutrina católica. Não vejo o mesmo empenho em condenar pessoas que transformam a Santa Missa em um evento social, em boate, um show musical, em peça de teatro ou um espetáculo decadente de heresias contra a Doutrina Social da Igreja - DSI. Fora os que tratam as vigílias de adoração ao Santíssimo como se fossem festas rave.

Esses sim deveriam ser veementemente alvejados com empenho digno de nota. Mas não é bem isso que se vê por aí.

domingo, 29 de abril de 2018

Capítulo 6, 1 do Evangelho de Mateus.


Ao meditar o Capítulo 6, 1 do Livro do Evangelho de Mateus, fica perceptível o quanto um versículo pode causar uma verdadeira revolução cristã na vida de qualquer pessoa.

"Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu."

É muito comum que todos nós queiramos fazer as boas obras esperando recompensa ou pelo menos um agradecimento, quem sabe até um reconhecimento. Acontece que quem faz as boas obras esperando tudo isso, faz esperando que o ser humano tenha uma atitude que não está preparado para ter. É preciso urgentemente entender que só Deus pode recompensar de forma justa qualquer boa obra, nunca os homens.

Ainda usando essa mesma lógica, Jesus ao falar sobre os escribas e fariseus afirma no evangelho de Mateus Capítulo 23, 3 que:

"Observai e fazei tudo o que os escribas e fariseus dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem."

Isto é, faça o que eu falo e não faça o que eu faço.

Esse é o famoso farisaísmo que hoje entendemos muito bem como hipocrisia. O grande problema é que todos detestam os hipócritas, mas não pensam nem meia vez antes de ser um deles. Escrever leis e definir atitudes para outras pessoas parece ser a especialidade de alguns. O problema é escrever essas leis e atitudes e agir de forma justamente contrária.

Mas Jesus ainda continua no mesmo capítulo 23 em seu versículo 4 e seguintes:

"Atam (escribas e fariseus) fardos pesados esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem removê-los sequer com o dedo. Fazem todas as suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas nos seus mantos."

Exigir que os outros façam o que eu sequer tento fazer, é muito fácil. É preciso morrer tentando, se for o caso, mas nunca deixar de fazer o certo mesmo que esse certo pareça errado. De qualquer forma, a pior escolha sempre vai ser cobrar de outras pessoas que carregam esse fardo sem nunca tentar carregar o seu peso que muitas vezes é mínimo.

De outra forma, fazer qualquer coisa esperando reconhecimento ou fazer mostrando que está fazendo pelo simples prazer te satisfazer a vaidade, pode ser um dos piores precipícios a se cair. Um daqueles bem altos e com espinhos no fundo.

As nossas boas obras, boas atitudes e orações devem ser feitas de modo mais oculto possível. Assim não alimentamos a vaidade nem o orgulho. Podemos até ficar tristes e um pouco desestimulados com a falta de reconhecimento alheio, mas isso passa. O mais importante de tudo sempre é entender que o melhor está por vir. 

O que é melhor está por vir, porque Deus é justiça. A justiça, o reconhecimento e o agradecimento vindos do ser humano de nada valem. Deus conhece os corações, e só Deus. Não devemos nunca confundir o que é bom aos homens com o que é bom a Deus.

"Ora, ouviram tudo isso os fariseus, que eram avarentos, e zombavam dele. Jesus disse-lhes: 'vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus vos conhece os corações; pois o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus.'"(Lc 16, 14-15)

Portanto, o que se conclui é que não se deve procurar a satisfação dos homens antes da satisfação de Deus. Dificilmente as duas coincidirão, entretanto, caso elas estejam em confronto, que a vontade de Deus sempre prevaleça. 

"Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a glória que é só de Deus?"(Jo 5, 44)

Que nós aprendamos a buscar, portanto, apenas a glória final que é aquela que vem de Deus, porque enquanto estivermos buscando Glória vinda dos homens estaremos cada vez mais incompletos.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Pessoas sem padrão e padrão sem pessoas.


Pessoas que seguem padrões não conseguem entender o relativismo. O problema é que as pessoas que seguem padrões hoje são cada vez mais raras. Isso porque seguir padrões hoje se tornou um crime tão hediondo que basicamente ninguém mais sabe o que é um padrão.

O que estou dizendo pode parecer estranho porque o pensamento relativista tomou conta de tudo o que existe em todos os lugares. Todos gostam de dizer que tem princípios, mas na verdade relativizam tudo. Todos têm princípios desde que esses princípios possam ser encurvados como a vara de goiabeira. Princípios elásticos é o que mais se vê por aqui.

Quando os princípios são realmente inegociáveis eles se tornam padrões e é aí que a coisa realmente funciona. Um homem que não gosta da cor vermelha não usa camisa vermelha, não tem um carro vermelho e tenta não usar objeto algum dessa cor. Um homem que repugna a ilegalidade, repugna ilegalidade de seus amigos e de seus inimigos. O homem que odeia a corrupção, odeia a corrupção de socialistas, conservadores e liberais. A questão toda está em os pratos da balança estarem equilibrados.

O que vemos é que há um relativismo total em todos os casos, para todas as situações. Aquele homem que não gosta da religião católica por causa da pompa, aceita a mesma pompa feita ao seu político de estimação. Aquele homem que detesta corrupção do partido ou do político que ele não votou, aceita a corrupção do partido e do político que ele apoia porque com certeza seria para uma boa causa. Aquele homem que detesta a censura, apoia que seus opositores sejam calados para o seu bem próprio ou para o bem da causa que pretende que seja vencedora. Isso é um escárnio. Isso é uma leviandade, uma falta de caráter que só quem entende as profundezas do relativismo consegue realmente enxergar. Os demais apenas sentem na própria pele os efeitos desse escárnio e dessa leviandade sem saber de onde vem o cheiro pútrido que sentem no ato natural de respirar.

Aquele homem que tem um padrão fixa seu olhar em uma única estrela, enquanto a terra gira freneticamente ao seu redor. Centrado em um ponto esse homem não fica tonto com tanto reviravolta que acontece ao seu lado. Está sempre equilibrado e pode perceber a real grandeza e distância das coisas.

terça-feira, 24 de abril de 2018

O militarismo e seus valores em alta.


No capítulo 3 do livro "Hereges" de Chesterton, o autor desenvolve uma ideia muito interessante, principalmente para os dias atuais nesse nosso Brasil. Aliás, é incrível como Chesterton conseguiu ser tão atual vivendo um século antes do que agora chamamos de atualidade.

Ele desenvolve uma ideia sobre o militarismo que chama bastante atenção. Quando se fala em militarismo obviamente que está se falando dos valores que o militar carrega consigo, especialmente a coragem e a disciplina.

O militarismo, segundo a tese, não estaria errado por mostrar para os homens como ser violentos, presunçosos e até belicosos. O mal do militarismo estaria justamente no contrário, ou seja, estaria em tornar boa parte dos homens muito mansos e pacifistas. A questão é saber de qual parte estamos falando. 

Que fique bem clara a diferença entre pacifistas e pacíficos. Mas a questão de Chesterton não é essa. A questão está justamente em entender que os homens que não são militares acabam se acostumando com o militarismo para protegê-los e para guerrear por eles. O militarismo acaba comprando as guerras que todos os homens deveriam tomar para si. 

A conclusão acaba sendo simples: quanto mais a sociedade se torna acovardada, mansa e pacifista ao extremo (qualquer semelhança com atualidade não é mera coincidência), o militarismo tende a crescer, justamente porque alguém precisa proteger a sociedade. Isso se torna um mal devido o fato de cada vez mais homens quererem cada vez menos resolver suas guerras pessoais. Deixam tudo para os militares e isso acaba destruindo a sociedade como um todo.

Chesterton exemplifica tal lógica quando menciona que a guarda pretoriana, aquela do império romano, se tornou muito importante e, a cada vez que os militares se tornavam mais e mais importante, a sociedade se tornava cada vez mais e mais luxuosa e débil. Se tornava mais e mais fútil. 

Portanto, o militar acaba ganhando cada vez mais poder civil na mesma proporção em que o civil vai perdendo cada vez mais as virtudes militares. Essa conclusão é aterradora quando se percebe que estamos vivendo exatamente isso. Vamos nos tornando uma sociedade cada vez mais covarde e por isso mesmo uma sociedade que cada vez mais busca o militarismo.

Os poemas antigos cantavam epicamente as armas e o poder do homem guerreiro. Hoje cantamos a proteção as baleias, o politicamente correto, quais os limites de um pai ao educar seu filho e uma tolerância libertina. 

No início desse texto falamos sobre alguns valores dos militares, especialmente a coragem e a disciplina. O que mais deixa o homem moderno perplexo não é sequer a coragem. Não é preciso ser militar para desenvolver essa coragem. O que mais chama atenção do homem moderno é a disciplina. Para perceber isso basta verificar o quão maravilhado fica um pai ao perceber a disciplina de um colégio militar onde seu filho agora vai estudar. Quando alguém busca um colégio militar não está buscando coragem, está buscando disciplina. Quando alguém se encanta com o desfile militar, não se encanta com a coragem, se encanta com a disciplina e o verdadeiro milagre da organização. A coragem é só uma consequência disso tudo. Não é exatamente isso que vemos na sociedade atual?

Assim sendo, não há qualquer necessidade de ser militar para buscar o militarismo. Se o militarismo é exaltado por sua disciplina, essa disciplina pode ser vista em vários locais e momentos na vida. Um padeiro é disciplinado quando acorda às 4 horas da manhã para conseguir deixar o pão pronto às 6. Nesse sentido o padeiro é tão militar quanto qualquer militar. A costureira precisa ser disciplinada ao exercer seu ofício caso contrário não fará um trabalho metódico suficiente e ainda corre o risco de sofrer várias agulhadas na mão. Nesse ponto a costureira é muito militar. Em ambos os casos essa disciplina é motivo de orgulho para os disciplinados e motivo de exemplo para os expectadores.

O militarismo surge de tempos em tempos ciclicamente. Quando a sociedade se enfraquece o militarismo cresce, quando a sociedade engloba os valores do militarismo e os usa, o militarismo cai em desuso e é esquecido. Ao ser esquecido a sociedade conta a se enfraquecer e o militarismo cresce.

Em qual período exatamente estamos vivendo?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O entediante e o entediado.


(Texto inspirado no livro "Hereges" de Chesterton em seus primeiros parágrafos do capítulo terceiro)

Os adjetivos entediante e entediado, que muitas vezes se tornaram não só meros adjetivos, mas verdadeiros brasões na vida de alguns, foi a forma que o poeta britânico George Gordon Byron, mais conhecido como Lorde Byron, dividiu a humanidade. É óbvio que algo tão simples, mas que demonstra a perspicácia e visão tão profunda que uma pessoa tem do ser humano, não passaria em branco nas páginas dos livros de Chesterton.

No livro "Hereges", Chesterton, logo no início do Capítulo 3, vem mostrar essa visão de mundo para o leitor e rapidamente, como é sua característica, analisa essa profundeza de pensamento e parece dizer tudo em poucas palavras. Chesterton parece conseguir esclarecer o óbvio.

Como não sou Chesterton e obviamente não tenho esse poder de síntese (na verdade acho que não tenho nenhum poder de síntese), muito menos a genialidade dele, vou ter que escrever um pouquinho mais para tentar decifrar aquele pensamento.

A ideia central de uma pessoa entediada é aquela de superficialidade, que não tem muito a oferecer para os que estão a sua volta, muito menos para a sociedade como um todo. O entediado é aquele que não consegue perceber as minúcias e os detalhes de cada ponto em específico. O entediado olha para grama e simplesmente vê a grama. O entediado não consegue olhar para a grama e definir os seus tons de verde. Se ele não consegue sequer definir tons de verde, obviamente que não vai se perguntar o porquê daqueles tons diferentes, muito menos chegar a alguma conclusão sobre quem criou aquilo. O entediado não consegue ver a beleza por trás do óbvio. Na verdade o entendiado sequer consegue ver o óbvio. É uma pessoa prática demais para ver o que está a sua frente. O entediado é aquela pessoa que deixa a vida passar à frente do seu nariz e depois de muitos anos não sabe dizer a cor do firmamento de onde viveu toda uma vida. 

O entediado só é assim por quê tudo para ele é chato e desnecessário. Tudo para ele precisa ser prático, objetivo e atingir a função que ele entende ser real. Ele não se atenta aos detalhes e não se atenta à beleza intrínseca das coisas. Não compreende que em cada ato da criação o motivo de existir revela sua beleza e sua beleza revela seu motivo e existir.

Já o entediante não é o contrário do entediado, mas sim o seu salvador. Se não fosse o entediante, o entediado nunca descobriria o quanto não percebe as belezas da criação muito menos perceberia o quanto sua vida é prática demais para ser levada a sério.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O rumo moral do Progresso.

(Texto inspirado no livro "Hereges" de Chesterton).


Porque nós gostamos sempre de contrapor o que já é conhecido com uma proposta alternativa de obter algo sobre aquilo que ninguém conhece? Em outras palavras, porque preferimos lançar-nos ao desconhecido considerando que isso é algo excelente no lugar de colocarmos tudo o que foi bom e já considerado produtivo em prática?

Com uma pergunta como essa eu não estou em momento algum colocando em xeque a dignidade ou mesmo a legitimidade do progresso. O que estou colocando em xeque é a legitimidade e a dignidade de colocar o progresso acima de qualquer coisa independente de qualquer coisa.

O que acaba acontecendo é que aquele que defende o progresso acima de tudo se torna mais dogmático que o religioso e tenta ser infalível em sua proposta. O progresso não pode ser infalível sob pena de o progressista se tornar o que ele mais abomina, ou seja, um conservador.

Vivemos em uma época em que dificilmente podemos dizer que estamos em progresso. A explicação disso é bem fácil: em outros momentos históricos as pessoas podiam até tomar decisões erradas e seguirem um caminho errado, mas estavam em concordância com o caminho a ser seguido. Nos dias atuais cada um pretende seguir um caminho e cada caminho pretende ser o certo inequivocamente. Hoje discordamos de todo tipo de direção que o outro quer tomar e cada um pretende ser o seu próprio ponto cardeal.

Por outro lado nos consideramos o povo e a época mais progressista da humanidade. Não saímos do lugar e discutimos coisas banais, mas consideramos que o movimento de ir e voltar sob o mesmo passo é progresso.

A questão toda se concentra no fato de que o progresso precisa ter um alvo e esse alvo precisa ser uma doutrina moral. Quando disparamos em direção a algo que dizemos que é o progresso, caso essa não seja a direção correta no rumo de uma doutrina moral, estaremos correndo em disparada e sem freios rumo ao precipício. Há ainda o risco de que assim que for dado o tiro para essa corrida, cada um corra em uma direção acreditando que aquela é a direção certa para o progresso. Esse é o resultado quando não se tem um foco moral.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Quem quer saber o que é bom?


(Texto inspirado nos primeiros parágrafos do livro "Hereges" de Chesterton).

Parece ser uma constatação fácil de identificar que fazemos de tudo para não falar do que é o bem, do que é bom e do que é correto. Fugimos de todas as formas desses conceitos. Falamos de tudo o que está em volta, mas evitamos ao máximo entrar no mérito da questão do que é realmente bom.

É fácil você encontrar uma pessoa que, com a melhor das intenções, fala com você sobre liberdade. É óbvio que a liberdade é algo bom, mas é preciso entender que é uma faceta do algo bom. A liberdade pode ter lados que não levam para o bem. 

Facilmente você também encontra pessoas que falam de progresso. Elas usam esse expediente para fugir da discussão do que é bom. O progresso pode ser bom, mas também pode ter uma face bem ruim.

Vamos encontrar muitas e muitas pessoas por aí que falam sobre educação, mas fogem de falar o que é algo bom. É claro que a educação é algo bom, mas é claro que a educação só pode ser algo bom quando parte do conceito de bom. Quando é usada para o mal...

O problema é que conceituar o bom é não relativizar e tomar posição sobre o assunto. Quem quer isso? O que as pessoas querem é abraçar a liberdade, mas se esquecem que é preciso conceituar uma série de coisas para conseguir chegar a essa liberdade. É preciso conceituar, inclusive, o que é liberdade. E é preciso dentro do conceito de liberdade saber se liberdade é algo bom. Para saber se algo é bom é preciso saber o que é bom. E mais uma vez eu pergunto: quem quer isso?

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Tenha um herege pra chamar de seu.


(Texto inspirado nos primeiros parágrafos do livro "Hereges" de Chesterton).

É absolutamente incrível pensar como hoje as pessoas tem um prazer quase transcendental de se dizerem heterodoxas, revolucionárias e até mesmo heréticas.

Em toda história das heresias, e não precisa ser um gênio para estudar e perceber isso, os hereges eram hereges, mas queriam ser ortodoxos. Muitas das vezes queriam ser ortodoxos até o limite do insuportável, o que os fazia ser hereges, ou dentro daquela linha tênue da semântica. Mas é fato que sempre quiseram ser ortodoxos e não heréticos. 

Esses heréticos do passado queriam tanto ser ortodoxos que às vezes chegavam a se embrenhar em meio à loucura de achar que são uma ilha de ortodoxia. Achavam que sozinhos contra todo o mundo podiam guardar a ortodoxia e acabavam caindo naquela mais baixa heresia. Faziam isso especialmente contra aquela que é a guardiã da ortodoxia. Quaisquer semelhanças com aqueles que hoje se consideram mais católicos que o próprio Papa não é mera coincidência. 

Hoje entretanto as pessoas se gabam de ser heréticas, revolucionárias, heterodoxas e fora de qualquer padrão ou qualquer linha de lógica, arrebentando aquela linha que já era tênue da semântica.

A grande dúvida que fica é o porquê de hoje as pessoas terem a intenção e fazerem tanta questão de se mostrar revoltadas, diferentes e heréticas. A impressão que dá é que a humanidade resolveu caminhar para trás e está dando passos largos em marcha ré. No lugar de melhorar e entender que cada pessoa é diferente da outra e por esse motivo cada pessoa tem necessidades diferentes das outras, ou seja, essa igualdade que tanto prezam e lutam é impossível, distante e até utópica. Esse pessoal prefere continuar insistindo na tese impossível de que precisamos de sociedades mais igualitárias. Não conseguem entender o mínimo que um gráfico pode explicar. Não conseguem entender que basta fazer a parte de baixo subir para melhorar a vida material das pessoas. No lugar preferem fazer a ponta de cima baixar, ou seja, preferem empobrecer o rico do que enriquecer o pobre.

Todo problema parece ser que o problema é o todo. Todo mundo sabe muito de pouca coisa. Há especialistas até para unha encravada do dedão esquerdo, mas você é criticado e chamado de lunático-fanático-religioso quando resolve juntar todas essas especialidades divididas de forma infinitesimal e perceber que a universalidade é perfeita e por isso só pode ser divina. Isso é a ortodoxia.

Seja como for, esse revolucionário que descrevemos acima é o nosso afamado herético moderno que levou a sua heresia chamada revolução ao patamar de sistema. O herético moderno nada mais é do que aquele que o é e faz questão de dizer que o é. É aquele que gosta de ser e faz questão de dizer que é herético e detesta a ortodoxia. É aquele que faz questão de ir contra a lógica e o bom senso e se acha acima da média por isso.

Enquanto você lia esse texto você pensou em alguém? Pois é, a intenção era essa mesmo. Adote o seu herege eu leve-o à ortodoxia. Caso não consiga entregue a Deus as raivas que vai passar como mortificação. De qualquer forma você ganha.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Conservador favorável a liberalismo econômico? Isso não existe.

Ultimamente tenho encontrado muitas pessoas que se auto-intitulam conservadoras dizendo que são conservadoras, mas são liberais no que tange a economia.

Ora, não vou ficar aqui debatendo as diferenças entre conservadores e liberais, muito menos que o liberalismo é uma porcaria. Quem não sabe a diferença procure saber por aí e quem acha que liberalismo não é uma porcaria, simplesmente pare de ler porque se continuar vai passar raiva.

Voltando à questão principal, ainda não consegui entender como uma pessoa pode ser conservadora e liberal em nenhum único ponto. Como é possível ser conservador e aceitar quando alguém resolver abrir uma casa de prostituição em frente a uma escola ou igreja? Não que hoje isso não aconteça, mas pelo menos podemos usar o senso moral das pessoas para impedir que isso continue. Se aceitarmos o liberalismo econômico vamos ter que abrir mão desse senso moral para não cairmos em contradição com o que devemos acreditar. O que é mais importante: a economia ou a moral? Quem definir isso?

É claro que existem muito mais exemplos, Mas vamos só mais um. Se você estiver em um liberalismo econômico é claro que não dá pra limitar as atividades econômicas e o comércio. É por esse motivo que os liberais são a favor da liberação de drogas que hoje são ilícitas. Quero só ver quem vai continuar sendo liberal quando o seu vizinho resolver abrir um comércio de maconha ou cocaína bem ao seu lado e os clientes começarem a consumir o produto na sua porta e na frente dos seus filhos.

Enfim, o que estou querendo dizer é que não dá para ser conservador e se dizer liberal apenas em um ponto específico. Claro que existem alguns pontos de intersecção entre os dois, mas são pontos de intersecção e não pontos fixos em que essas duas partes caminham juntas.

Portanto, só para não deixar de usar uma expressão mais atual, caso contrário o texto não vai parecer "descolado", a minha intenção não é colocar ninguém "dentro de caixinhas", até porque eu mesmo não me coloco. A intenção é pedir que você abra os olhos e pelo menos seja coerente com que está defendendo.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Homossexualismo, Dom de Deus? Situação jurídico canônica.

Essa semana fomos capazes de ver um bispo da Igreja Católica afirmando que o homossexualismo é dom de Deus. Muitos vieram perguntar se isso caracterizaria cisma ou mesmo apostasia. A verdade é que precisamos conceituar muito bem o que é heresia, o que é cisma e o que é apostasia antes de tentar enquadrar qualquer caso concreto.

Sobre a questão doutrinária em si não há muita necessidade de entrar em detalhes para provar que a fala do bispo é absolutamente heterodoxa. O Catecismo diz que sentir atração pelo mesmo sexo é uma "inclinação objetivamente desordenada" (§2358) e que "As pessoas homossexuais são chamadas à castidade" (§2359)

No caso específico dos ensinamentos desse Bispo, não há caracterização, a princípio, nem de apostasia e nem de cisma. Uma coisa é ensinar heterodoxias e heresias, outra coisa bem diferente é o abandono da fé e o compromisso com outra, o que caracterizaria apostasia.

O Bispo em questão não abandonou a Igreja e foi pra uma seita qualquer (cisma), mas ensina heterodoxias no pior grau. Isso porquê, como bem sabemos, o que ele afirmou é frontal e absolutamente contra qualquer tipo de interpretação doutrinária no cristianismo. 

Apostasia é diferente de heresia, que é diferente de cisma. Esses três podem estar combinados ou não. No caso específico, me parece, não houve nenhum dos três, isso porquê a apostasia é o abandono de toda a fé, a negação do conjunto da doutrina, como já afirmado aqui. Heresia é a negação ou contradição de uma parte da doutrina. Cisma é o rompimento direto e explícito com a autoridade do Papa ou da hierarquia em comunhão com ele. Acontece que esses três devem ser feitos com livre consciência e pleno conhecimento do que está sendo feito.

Nesse caso específico, o Núncio deve ser acionado pra solucionar a questão.

O que esse bispo fez não se enquadra em nenhum dos casos a princípio. O certo seria agora abrir um processo canônico para investigar qual o nível de consciência e conhecimento desse Bispo sobre o tema abordado. Isso tudo para saber até que ponto essa afirmação foi livre e consciente de expressão para entender se realmente é caso de heresia. Do contrário ele simplesmente falou besteira e deve ser devidamente corrigido.

Mas ainda fica a pergunta se o Bispo não pode ser classificado pelo menos como herege. A resposta é simples, mas não tão direta: não necessariamente.

Em dados casos, e me parece que esse é um dos dados casos, o religioso é intelectualmente prejudicado (um bom eufemismo) e por isso não deveria sequer ter sido ordenado para diácono, quanto mais para Bispo, isso foge à sua responsabilidade; e/ou teve uma formação horrível, o que sabemos que é absolutamente comum não só nos dias de hoje, mas também nas décadas de 60, 70 e 80 (também 90) quando a teologia da libertação era muito mais forte.

Um sacerdote ou um prelado que ensina esse tipo de heterodoxia deve ser devidamente colocado em seu lugar, restabelecendo a ortodoxia católica e lembrando-lhe qual sua função; o atual Código de Direito canônico dá essa permissão até ao laicato.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Ataque à livre expressão no Facebook.

Todos nós sabemos e não é novidade para ninguém, que na rede social Facebook inúmeras páginas são publicadas para divulgar conteúdos católicos, além de outros tantos conteúdos com todo tipo de gente seguindo ideologias nascentes ou das mais antigas. Entretanto, na noite de segunda-feira (17/07/17), muitas das páginas católicas (eu não tinha notícia de páginas de outro conteúdo até o momento em que escrevi esse texto) foram bloqueadas ou excluídas sem um prévio aviso. Essa informação veio dos próprios administradores e de muitos dos seguidores que não encontraram a página no dia seguinte.

Entre tais páginas está a fanpage "Papa Francisco Brasil", que conta com mais de 4 milhões de seguidores. O seu administrador, Carlos Renê, contou que percebeu “que a página foi tirada do ar por volta das 22h do dia 17 de julho”.

“O único aviso do Facebook foi uma mensagem do topo da página ‘Your Page has been unpublished’ (Sua Página foi removida), dando uma opção para contestação, já fiz isso, mas até agora a página permanece bloqueada”, declarou o administrador daquela fanpage.

Outra página católica de grande alcance no Brasil que também ficou fora do ar é "Nossa Senhora Cuida de Mim", que em julho ultrapassou os 3 milhões de seguidores.

Também ficaram fora do ar as páginas: Meu Imaculado Coração triunfará, Essência e Luz, Clássicos da Música Católica, Nossa Senhora, Belezas da IgrejaCatólica, Virgem Maria e Santas, Ore espere confia, Uma oração e o coração se acalma, God de Portugal, My Mother Mary dos EUA, entre outros.

Na rede social, a página Sou Feliz por ser Católico (a) publicou uma nota de repúdio a esses acontecimentos, na qual pede que “todos os católicos não se calem, enviem mensagem ao Facebook solicitando o retorno das páginas e o respeito ao nosso direito de crença religiosa”.

O mesmo pedido foi feito por Padre Augusto Bezerra, para o qual, “se isso for verdade e as páginas católicas estiverem sendo excluídas, é algo preocupante”. O sacerdote listou 21 páginas católicas que foram bloqueadas ou banidas da rede social nas últimas 24 horas.

Praticamente todas as semanas temos relatos de coisas do tipo. Claro que nunca houve um ato de censura por parte do Facebook com tão grande abrangência. Pelo menos da minha parte, que sou bem ativo no Facebook, não tenho notícias.

A grande questão é que as redes sociais, entre elas o Twitter e o próprio Facebook, ainda não entenderam ou se fazem de desentendidos quando pensam que são meras empresas de publicidade. 

Empresas como Facebook tem o poder de escolher o que você e eu vamos ler e o que vamos entender dessas leituras. Eles têm o poder até de escolher o que é mais relevante o que é menos relevante. Um poder como esse não pode ficar absolutamente nas mãos de uma única empresa ou mesmo de uma única pessoa. Especialmente quando se sabe que essa única empresa e essa única pessoa tem uma grande afinidade com ideologias totalitárias.

Sim, estou afirmando, como muitos já o fizeram, que o Facebook e seu proprietário majoritário tem afinidade com ideologias totalitárias especialmente com socialismo.

Isso fica muito claro quando a empresa censura páginas que vão de encontro com que ele pretende difundir. Por mais que se queira esconder, é muito fácil perceber o quanto páginas ligadas à esquerda tem facilidade de se manter na rede social e difundir mentiras deslavadas e até ataques pessoais, e páginas que se dizem e se mostram de direita, conservadoras, católicas ou simplesmente que tentam confrontar o socialismo, rapidamente e frequentemente "caem". 


Empresas como Facebook hoje são a fonte de renda de um sem número de outras empresas. É dentro do Facebook que várias pessoas garantem o próprio sustento e uma renda que muitas vezes supera em muito o que ganhavam sendo empregados aqui ou ali. O que acontece dentro dessa rede social não pode ficar a cargo dos devaneios ideológicos desse ou daquele. Muitas vezes é preciso que o estado, normalmente através do Poder Judiciário, interfira e garanta o direito à liberdade de expressão. Pelo menos é necessário que o estado faça o que for possível, uma vez que a empresa Facebook é maior e mais influente que muitos estados por aí.

Enfim, censura dentro das redes sociais não é simplesmente um direito que é dado aos proprietários dessas metaempresas. Essas empresas já ultrapassaram muito o que se chama livre mercado e na verdade elas sobrevoam o mercado e fazem dele o que querem. 

Sempre fui a favor do mínimo de intervenção estatal possível, entretanto o mínimo de intervenção estatal possível não significa intervenção nenhuma. O estado não é algo desnecessário. Ele simplesmente não é tão necessário quanto muitos pensam. Em casos como esse a intervenção estatal, com toda sua força e mão pesada, precisa garantir o direito à livre expressão.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Guerra justa e o justiceiro social.


Dentro do estudo sobre o tema da guerra justa, que Santo Agostinho tão brilhantemente iniciou e que Santo Tomás de Aquino mais brilhantemente ainda deu continuidade, existe uma pequena objeção que parecia simples para esses dois Santos, mas que hoje, devido a infantilidade que temos ao conhecer e estudar a nossa fé católica, tornamos tal objeção algo praticamente intransponível. Essa objeção é a de que a guerra justa cristã parece estar em frontal choque com o preceito natural e divino de não matar.

É relativamente simples explicar que uma coisa não está oposta a outra. A primeira coisa é entender que o princípio cristão de não matar está ligado ao assassinato de inocente e não à retribuição justa e reparadora por um mal cometido, desde que essa Retribuição não venha de uma única pessoa particularmente, porque se assim o fosse aconteceria por vingança.  Eis aí a grande falácia que o cinema usa para criar tantos heróis que usam dessa Justiça particular no intuito de retribuir a punição necessária a mal causado. Mas nesse caso estamos falando de ficção. O problema é quando isso ultrapassa as telas de cinema e as revistas em quadrinhos.

Sem dúvida alguma, culpa e dolo exigem uma Justiça reparadora equilibrada e proporcional, mas essa Justiça reparadora deve vir de uma autoridade pública que deve ser legítima o suficiente para igualmente causar uma agressão legítima e uma defesa que retribua o mal causado.

Nesse ponto chegamos à necessidade de existir um ente público chamado estado que pode aclamar a si essa responsabilidade, desde que legítimo. O ente particular e/ou privado só poderia se auto aclamar responsável por essa retribuição ao mal causado no caso de um ente público ser absolutamente ilegítimo e totalmente irrecuperável, permanentemente ou a tempo de resolver a questão a contento.

Voltando à questão do cinema, é muitíssimo interessante verificar quantos heróis, com poderes sobrenaturais ou não, chamam a si essa responsabilidade de retribuir uma oposição ao mal causado. Quem os elege para tal tarefa são eles mesmos privadamente. E por que fazem isso? Dentro do universo ficcional a resposta está na ineficiência do ente público em retribuir de forma satisfatória o mal causado. Em nosso mundo real o sucesso que esses heróis fazem está no sentimento coletivo de que o ente público realmente não está conseguindo resolver o problema que deveria ser legítimo a ele resolver. A ideia é que se o ente público não consegue resolver, então um particular resolverá. E nesse ponto caímos exatamente na questão que acima foi colocada: há legitimidade ou não em fazer justiça com as próprias mãos? Veja bem que não estamos falando em legítima defesa, nesse ponto não há dúvida de que matar o agente da ameaça é algo absolutamente legítimo. A situação colocada é justamente sair ao encontro daqueles que causam o mal e ser o agente julgador e executor de sentenças ao mesmo tempo, ou seja, fazer justiça social com as próprias mãos.

Trata-se de um assunto espinhoso nos dias atuais, isso porque a sociedade como um todo não mais consegue entender que existe uma guerra justa. A guerra justa busca justamente trazer de volta a paz perdida ou chegar à paz desejada. Enfim, a ideia justamente é chegar à paz. As perguntas que ficam são simples: temos estados nacionais realmente legítimos e empenhados nesse propósito? Se não temos, existe alguma outra entidade que garante legitimidade e que possa desempenhar esse papel? Se a resposta é não para as duas perguntas anteriores, então está justificada a justiça social com as próprias mãos?

Certamente que a ideia deste texto não é afirmar nada nem trazer receita de bolo. Aqui não pretendi trazer nenhuma certeza, mas na verdade minha pretensão foi destruir as certezas falaciosas que diariamente pretendem nos colocar na cabeça e goelas abaixo.

sábado, 3 de junho de 2017

República, Monarquia, Parlamentarismo, Presidencialismo e a Federação.

Todas as vezes que falamos de Doutrina Social da Igreja e aprofundamos nesse nesse assunto, infalivelmente surge a questão de qual o melhor sistema econômico e, em um segundo momento, qual o melhor sistema de governo e de estado, apesar de a maioria não saber nem a diferença entre sistema de governo e sistema de estado.

A grande maioria das pessoas sequer conhece o funcionamento de uma monarquia, mas mesmo assim a crítica porque aprendeu na escola que a monarquia é isso e aquilo. Na verdade o que eles acabam criticando é a monarquia absolutista que só alguns poucos lunáticos querem. Outros tantos defendem o presidencialismo, mas não conhecem nenhum outro sistema. Criticam a monarquia e defendem uma república presidencialista em que um presidente da república, como é o nosso caso, muitas vezes tem muito mais poder do que um rei em uma monarquia parlamentarista. O mesmo acontece com as repúblicas parlamentaristas que ninguém consegue entender e debater seriamente no Brasil. Existem tantas outras discussões que podem ser colocadas à mesa, mas muitas vezes esquecemos de discutir algo que, ao meu ver, é o que mais macula o sistema brasileiro: o formato de Federação em que vivemos.

O formato de Federação em que vivemos no Brasil é único, bem ao estilo jabuticaba. Em nenhum país do mundo existem três esferas federativas que formam a dita federação. Isso acaba fazendo com que tenhamos uma federação no papel, ficamos brigando para que ela funcione, mas por outro lado os contrapesos levam o Brasil a ser, na verdade e na prática, um país de características unitárias.

Assim que foi proclamada a república pelo golpe Republicano de Deodoro da Fonseca, de país unitário dunitário de governo centralizado que era o império, o Brasil transformou-se em uma federação, que acaba sendo apenas formal, visto que nunca perdeu as características de um país dominado pelo Governo Federal.

Só para constar, um país unitário é aquele que não é uma federação, ou seja, é um país que tem um poder Central e que não é formado por poderes descentralizados. Tenho certeza que lendo esse conceito, você achou que primeiro Brasil era realmente um país unitário, mas depois ficou em dúvida porque temos outras características destoantes. Esse é o grande problema.

Desde a Constituição de 1891 o Brasil é uma República Federativa, mas também desde essa data a união esmaga estados e municípios. Na verdade o que temos e sempre tivemos são unidades federativas denominadas estados e municípios diariamente com pires na mão pedindo esmolas para a União. É mesmo possível que isso funcione?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O vendedor de palavras.

Estive lendo este conto e senti um grande identidade com ele. O que mais vemos nos dias atuais é isso mesmo: gente que não consegue ler nem gibi porque acha que é grande demais. O que mais vejo por ai são crianças e adolescentes que pegam um livro e o avaliam pelo tamanho, se for grande deixa pra lá.





O vendedor de palavras.

Um comerciante decidiu ajudar a combater a "indigência lexical" do país, mas ao melhor preço do mercado: ouviu  dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, “indigência lexical”.
 
Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia:
    - Histriônico – apenas R$ 0,50.
 
Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse:
 

  - O que o senhor está vendendo?
   - Palavras, meu senhor. A promoção do dia é “histriônico” a cinqüenta centavos, como diz a placa.
   - O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.
   - O senhor sabe o significado de “histriônico”?
   - Não.
   - Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já tem ou coisas de que elas não precisem.
   - Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.
   - O senhor tem dicionário em casa?
   - Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.
   - O senhor estava indo à biblioteca?
   - Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.
   - Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real!
   - Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?
  - Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.
   - O que pretende com  isto? Vai ficar rico vendendo palavras?
   - O senhor conhece Nélida Piñon?
   - Não.
   - É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o país sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.
   - E por que o senhor não vende livros?
   - Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.
   - E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem a barriga.
   - A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado.
Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa, ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga.
Suponho que para cada pessoas que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.
   - O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...
   - Jactância.
   - Pegar um livro velho...
   - Alfarrábio.
   - O senhor me interrompe!
   - Profaço.
   - Está me enrolando ,não é?
   - Tergiversando.
   - Quanta lenga-lenga...
   - Ambages.
   - Ambages?
   - Pode ser também “evasivas”.
   - Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!
   - Pusilânime.
   - O senhor é engraçadinho, não?
   - Finalmente chegamos: histriônico!
   - Adeus.
   - Ei! Vai embora sem pagar?
   - Tome seus cinqüenta centavos.
   - São três reais e cinqüenta.
   - Como é?
   - Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só “histriônico” estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.
   - Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
   - É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?
   - Tem troco para cinco?

Fábio Reynol é jornalista especializado em ciências e escritor.