quinta-feira, 19 de julho de 2018

Breves apontamentos sobre o cânon 834, §1 do Código de Direito Canônico de 1983.


O cânon 834 do CIC é o cânon de abertura do livro IV do Código que pretende legislar sobre o Múnus de Santificar da Igreja.

Tendo em vista que o centro de toda norma jurídica da Igreja é a pessoa redimida pelo sangue de Cristo e que a mentalidade jurídica é sempre aquela de análise de possibilidade ou não possibilidades de determinadas ações, é preciso, contudo, que se tenha tato pastoral no momento de praticar a lei e colocar em prática o múnus de santificar. É preciso informar a pessoa que naquele momento e por tais e tais motivos não é possível ainda se comungar, ou ser padrinho ou casar e assim por diante. Inferir a lei sob o pretexto apenas de que é a lei não é o intuito da Igreja. Tal positivismo sequer consegue se fazer útil na ótica do direito estatal, quem dirá na Igreja onde o intuito maior é sempre salvar almas.

O cânon que será objeto do nosso estudo, portanto, é assim redigido:
Cân. 834 - § 1. A igreja desempenha seu múnus de santificar, de modo especial por meio da sagrada Liturgia, que é tida como exercício do sacerdócio de Jesus Cristo, na qual, por meio de sinais sensíveis, é significada e, segundo o modo próprio de cada um, é realizada a santificação dos homens, e é exercido plenamente pelo Corpo místico de Jesus Cristo, isto é, pela Cabeça e pelos membros, o culto público de Deus.

Alguns pontos aqui precisam ser analisado com mais calma.

Conforme informa o cânon 2 do CIC, o Código não pretende legislar sobre ritos litúrgicos e deixa para leis litúrgicas específicas tais determinações, contudo, já é sabido que as leis litúrgicas não podem se confrontar com o CIC que concede, digamos, as normas gerais para outras regras mais específicas.
 
Por esse motivo é possível que esse cânon, que tem uma redação muito mais teológica do que jurídica em si, possa manifestar sobre a liturgia de forma tão profunda assim como vários outros cânones que se seguem a partir desse.

Assim sendo, esse Cânon não pretende legislar ou mesmo interferir na liturgia ou nos ritos, mas já deixa claro e delimita diversos pontos sobre o dever de santificar que a Igreja tem ao expressar que “de modo especial” esse dever se dá por intermédio da liturgia, não ,portanto, unicamente.

Sabendo, então, que o múnus de santificar da Igreja não se esgota na liturgia, verificamos que isso já é manifestado no n. 12 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium nos seguintes termos:

12. A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós ao Pai, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar. E o mesmo Apóstolo nos ensina a trazer sempre no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, para que a sua vida se revele na nossa carne mortal. É essa a razão por que no Sacrifício da Missa pedimos ao Senhor que, tendo aceite a oblação da vítima espiritual, faça de nós uma «oferta eterna» a si consagrada.

Mais claro que esse número da Sacrosactum Concilium impossível. A liturgia é parte essencial, mas não o todo. Outras tantas coisas são necessárias para que o todo santificador possa ser efetivo.

Por outro ponto é preciso perceber que, apesar de não ser exclusivamente o único meio, é na liturgia que acontece o ápice e de onde vem toda a força santificadora da Igreja, conforme manifesta a mesma Constituição Apostólica Sacrosanctum Concilium em seu n. 10.

10. Contudo, a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. Na verdade, o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Baptismo se reúnam em assembleia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor.

Tal preceito conforme consta no n. 10 acima transcrito é facilmente percebido em toda a encíclica Ecclesia de Eucharistia de São João Paulo II que em uma belíssima carta a todos os fiéis, sejam leigos ou do clero, disserta e medita sobre a Eucaristia como a fonte de toda uma Igreja de Cristo, motivo pelo qual ela existe e sobrevive, fonte de sua força e existência.

Outro ponto que fica claro no cânon 834, §1 é que a santificação dos homens se dá pela liturgia, razão pela qual é necessário que haja alguma legislação sobre ela.

A liturgia, sendo ela rito, não pode ficar a mercê da vontade de grupos e de celebrantes. Não pode se perder em meio a invencionices e criações que nada trazem de útil e não fazem parte da sua essência. Por esse motivo a liturgia precisa ter a mão forte da Igreja para regê-la. Uma vez que o mundo todo celebra o mesmo rito, esse rito pode se contaminar facilmente com vontades alheias às vontades da Igreja que pretende manter a essência do que Jesus quis fazer na última ceia e a manter a Santa Missa como um culto agradável a Deus e não às pessoas. Tal ponto fica ainda mais claro quando, no §2 fica manifestado no CIC:

§ 2. Esse culto se realiza quando é exercido em nome da Igreja por pessoas legitimamente a isso destinadas e por atos aprovados pela autoridade da Igreja.

Sobre esse segundo parágrafo manifestaremos em momento oportuno uma vez que será necessário um aprofundamento muito maior.

Por fim, no §1 há quase que uma cópia resumida do n. 7 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium e deixa clara a inseparável unidade entre culto e santificação.

7. Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro - «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz» -quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt. 18,20).
Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai.
Com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo - cabeça e membros - presta a Deus o culto público integral.
Portanto, qualquer celebração litúrgica é, por ser obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, ação sagrada por excelência, cuja eficácia, com o mesmo título e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja.

Ali, na liturgia, se encontra o exercício da função sacerdotal de Cristo que se manifesta com sinais sensíveis, cada um com seu significado que deve ser cuidado e preservado da ação externa para que possa manter sua pureza de intenção. É na liturgia que esses sinais se manifestam para a santificação do homens o cumprimento da lei suprema da salvação das almas (cânon 1752), cada um a sua maneira tornando visível, público e integral o Corpo Místico de Cristo com sua cabeça e membros.

Por todos esses motivos a Igreja entendeu por bem preservar legalmente a celebração litúrgica em cânones próprios dentro do CIC, além da legislação específica, uma vez que ali acontece a ação sagrada por excelência e que “não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja.”

terça-feira, 19 de junho de 2018

O fraco, o forte, o corajoso e o santo.


(Texto inspirado na conclusão do capítulo V do livro "Hereges" de Chesterton)

O forte não pode ser corajoso. Essa é uma premissa que pode parecer contraditória e até paradoxal à primeira vista, mas se analisarmos bem, trata-se de uma das mais óbvias sentenças.

O forte não tem motivo para ser corajoso, somente o fraco o tem. O forte já é temido e já tem o nome que o precede. Para o fraco tudo é uma luta, tudo é tarefa hercúlea. O fraco precisa ser corajoso para sobreviver.

Constatando isso tudo, fica claro que somente podemos confiar, em tempos difíceis como os nossos, naqueles que podem ser corajosos, ou seja, naqueles que lutam e matam um leão por dia para conseguir os seus objetivos, e não só eles, mas também para seguirem sobrevivendo. Só os corajosos são realmente confiáveis para serem fortes. Essa lógica nos traz uma paradoxal sentença de que só o fraco pode realmente ser forte. 

Ver paradoxos onde não existem são a nossa especialidade, ora, é óbvio que só fraco pode realmente ser forte, afinal de contas, o forte já é forte, ou pelo menos parece ser. 

A única forma de ser corajoso é ser fraco e ter um ato de coragem. Aquele que é forte e tem um ato de coragem não faz mais do que já é esperado. O forte acaba não tendo motivos para ser corajoso porque ele sempre será o gigante da luta. O forte sempre será o Golias. Mas é só Davi que pode ser corajoso. Para que o forte seja corajoso é preciso que ele entenda que tem necessidade de lutar com o fraco de igual para igual. Golias só seria realmente corajoso se entendesse o quão perigoso Davi poderia ser, mesmo sendo um fracote que não conseguia sequer sustentar uma armadura.

O super-homem que Nietzsche criou, nada mais é do que aquele homem forte que temos falado aqui, mas que nunca será corajoso. Será difícil entender que somente o fraco pode lutar contra tudo e contra todos e por isso só ele pode crescer ao ponto de ser corajoso e se tornar santo? O forte não precisa lutar contra nada. O super-homem não tem nada que o segure ou impeça. Ele não tem barreiras. Só o fraco precisa de provações diárias portanto, só ele pode chegar à santidade, justamente porque ele entende que a santidade não está nele, mas é preciso alcança-lá de diversas formas.

Se aquele super-homem de Nietzsche entendesse que não é forte em tudo, entenderia que não é corajoso e, portanto, não tem nada de super-homem. Ele deveria saber pelo menos que é preciso lutar contra cada um de nós naquilo que somos bons, isto é, contra nossa fraqueza que nos impulsiona a enfrentar os mais diversos gigantes e que nos faz corajosos a cada dia.

No final de tudo isso chegamos a conclusão de que só o fraco pode chegar a ser corajoso e só o fraco que chega a ser corajoso pode chegar a ser santo. Só um homem que é forte o bastante para entender e sentir sua fraqueza pode ser forte o bastante para superá-la. A coragem não está em sentir menos, mas em sentir mais. O fraco que chega a ser corajoso e por isso Santo, é aquele que entendeu que é preciso sentir mais para alcançar e superar os seus limites. A santidade é o último limite, a última fronteira.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Maldito o homem que confia no homem!


Existe um certo padrão ao questionar a posição da Igreja para interpretação bíblica:

"Maldito o homem que confia no homem! Não acredito no papa, acredito em Jesus! Não preciso da Igreja, só de Jesus!" Etc. 

Os padrões de reação física de qualquer pessoa que fica indignada são os de ficar inquieto, perder a paciência ou mesmo não conseguir raciocinar direito para rebater. Normalmente é o que acontece quando a discussão envolve religião, futebol e política.

Só que não pode ser assim.

A própria frase já traz consigo uma incoerência sem tamanho. 

Como pode ser maldito o homem que confia no homem e isso ser o motivo para ele não confiar no Papa, sendo que quem diz uma desconformidade dessas está confiando mais em si mesmo do que em qualquer pessoa natural ou sobrenatural?

Quando alguém diz algo parecido acaba dizendo que confia mais na sua própria opinião e dá crédito demais a si mesmo.

Eu ainda não quis entrar na polêmica de que quem costuma dizer esse tipo de coisa normalmente segue alguma religião ou seita protestante. Se é assim, normalmente está seguindo o que o pastor falou sobre a Bíblia. Até onde eu sei o pastor é uma pessoa, é um homem.

Quando se entrega um versículo que esse indivíduo incoerente nunca viu e que dá um nó na doutrina protestante, na pequena cabeça dele e que ele não sabe interpretar, a primeira coisa que diz é: "Nunca tinha visto esse versículo, mas vou perguntar para o meu pastor."

Sem contar a incongruência da frase ao dizer que não precisa da igreja, só de Jesus. Mas essa pequena afirmação que equivale a dizer que o círculo quadrado, fica para um outro texto em um outro dia.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Ou guerra de nações ou guerra de utopias.


(Texto inspirado no capítulo V do livro "Hereges", de Chesterton).

A ideia de um governo único mundial não só é distópica mas também é absurda e incoerente. 

Dizem que em um governo mundial seria possível acabar com as guerras, acabar com diferenças fundamentais que fazem com que o ser humano destrua outro ser humano de diversas formas, acabar com diferenças de renda e classe, enfim, acabar com o ser humano como ser humano e instituir um ser humano dentro do socialismo premente.

Nós não conseguimos concordar um com outro nem com relação a colocar ou não uva passa no arroz, existem variedades de opinião nas artes e até na cor da roupa. Pode parecer exagero achar que esses pequenos motivos levariam à guerra, mas o que nos leva à guerra senão pequenos motivos que levam a outros pequenos motivos e o conjunto desses pequenos motivos forma um conjunto intransponível e disforme de opiniões sem concordância nenhuma por ambos os lados? Ficou difícil de entender? Eu explico: temos tantas pequenas diferenças uns com os outros que isso nos torna absolutamente individuais e é justamente quando essas pequenas diferenças não são aceitas de forma alguma por um dos lados é que a guerra acontece.

Se temos tantas diferenças e tantas variedades de opinião, porque não teríamos variedades de governo? A ideia de um governo mundial é simplesmente absurda e ridícula. Sempre uma grande maioria vai sair perdendo em prol dos benefícios de uma pequena minoria. Os protótipos de governo mundial são justamente os países que tentaram implementar o socialismo. Catástrofes governamentais e humanitárias aconteceram nesses países especialmente na União Soviética, China, Camboja e Cuba. Atualmente podemos citar a vizinha Venezuela.

A guerra nunca deixará de acontecer porque temos um governo mundial. O que vai acontecer é que teremos guerras por motivos cada vez mais banais.

Não há como impedir conflitos de nações e civilizações, justamente porque para conseguir isso seria preciso impedir um conflito de idéias. Impedir um conflito de idéias é tudo o que certos indivíduos querem, ou seja, implementar ditaduras de ideias. Isso já está acontecendo por aí.

Falando em ditaduras de ideias, alguém já parou para pensar em qual velocidade esse tipo de coisa está correndo? Não quero nem perguntar se você já percebeu que essas ditaduras de ideias estão presentes no nosso meio, só quero saber se você percebeu a velocidade que isso avança.

Não é à toa que Chesterton em seu livro "Hereges", no Capítulo V cravou a seguinte afirmação: "se não houvesse mais a moderna luta entre nações, haveria somente uma luta entre utopias."

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Só o humilde é capaz.


O humilde só pode ser conceituado como aquele homem capaz de fazer grandes coisas. É o humilde que é capaz de fazer coisas ousadas. E ele só é capaz de grandes coisas e de tamanha ousadia por que é humilde e não porque é homem.

Não são todos os homens que são capazes de grandes coisas e de grande ousadias. O humilde é capaz disso por que reconhece a sua pequenez em frente a todas essas grandes coisas e ousadias. Aquele homem que não detém humildade tenta ver a uma distância tão grande e tão além das possibilidades que a sua ínfima visão humana pode alcançar, que não consegue perceber os detalhes que o levariam ao que era seu objetivo inicial. Já aquele homem humilde não pretende alcançar o que está além do seu olhar e por isso mesmo acaba percorrendo os caminhos corretos, aprendendo com cada passo e descobrindo que pode ir muito mais longe do que imaginava em um primeiro momento. 

O humilde não pensa no quinquagésimo passo, mas apenas no próximo porque muitas vezes e, sinceramente, se acha incapaz de dar mais do que um passo de cada vez ou simplesmente não se preocupa com isso porque seu ego não é inflado.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Véu, missa Tridentina e outras obscuridades.


Hoje eu pretendo começar escrevendo este texto de uma forma diferente do que é o meu estilo. Pois é, eu tenho um estilo. Mas vamos ao que interessa. 

Normalmente eu procuro me justificar, quando realmente o faço, só no final do texto e de forma mais conclusiva possível, mas hoje vamos fazer isso logo no início do texto, caso contrário vai ter gente que não vai passar do terceiro parágrafo.

Bom, a justificativa é que eu não sou católico tradicionalista, nem católico progressista, muito menos católico carismático ou católico teelista. A verdade é que eu acredito que após dizer-se católico não cabe nenhum adjetivo na frente.

Sabendo disso e acreditando que um monte de criticas virão assim mesmo, vamos aos fatos. Não há nada que eu ache mais estranho do que as críticas veementes a quem queira usar véu o queira assistir a missa tridentina ou casar-se nesse rito.

As motivações para esse tipo de crítica são as mais diversas: na verdade estimulam a vaidade; não passa de modinha; são pessoas querendo ser mais católicas que o Papa; estão todos querendo aparecer... e por aí vai.

Não nego que tudo isso possa acontecer. Não nego de forma alguma que várias mulheres que usam véu deturpam seu uso deixando a modéstia e a humildade de lado e usando por simples modismo e vaidade. Aliás, que fique bem claro que a vaidade espiritual é a pior delas.

Não nego também que muita gente tem assistido a missas tridentinas e queiram casar-se nesse rito por simples moda. Eu tenho certeza que muitos seguem esse caminho não só por moda mas também por achar-se mais dignos que os demais. Fora aquela pontinha de gnosticismo quando se sentem "os Iluminados" com saber que os outros ainda não alcançaram.

É óbvio que tudo isso existe e nem é tão difícil de achar. Mas também é óbvio que não dá para jogar todo mundo no mesmo saco e dizer que é tudo a mesma coisa. 

Da mesma forma que conheço pessoas que usam véu por modismo ou por vaidade, também conheço uma série de mulheres que usam véu e que realmente buscam aquela humildade e modéstia que caracterizam o uso correto.

Conheço também uma série de pessoas que frequentam a missa no rito extraordinário porque realmente se sentem mais envolvidos no clima místico e contemplativo através desse rito. Aliás, não foi por esse motivo que o Papa Bento XVI promulgou o Motu Proprio que liberou a celebração da missa no rito extraordinário para todos os sacerdotes que quiserem celebra-lo, sendo desnecessária autorização do Bispo?

Como diz um velho ditado que ainda corre por aí: não se pode jogar a criança fora junto com a água suja do banho. O que não é intrinsecamente mau precisa ter o que é bom separado, mesmo que para isso seja preciso esperar um tempo. Não é exatamente isso que Jesus nos ensina na parábola do joio e do trigo? Não é preciso deixar crescer os dois juntos para separar só ao final, justamente para não se arrancar o trigo junto com o joio e jogue tudo fora?

O mais impressionante disso tudo é que eu não vejo tanto empenho em condenar e atacar coisas que são frontalmente contra a doutrina católica. Não vejo o mesmo empenho em condenar pessoas que transformam a Santa Missa em um evento social, em boate, um show musical, em peça de teatro ou um espetáculo decadente de heresias contra a Doutrina Social da Igreja - DSI. Fora os que tratam as vigílias de adoração ao Santíssimo como se fossem festas rave.

Esses sim deveriam ser veementemente alvejados com empenho digno de nota. Mas não é bem isso que se vê por aí.

domingo, 29 de abril de 2018

Capítulo 6, 1 do Evangelho de Mateus.


Ao meditar o Capítulo 6, 1 do Livro do Evangelho de Mateus, fica perceptível o quanto um versículo pode causar uma verdadeira revolução cristã na vida de qualquer pessoa.

"Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu."

É muito comum que todos nós queiramos fazer as boas obras esperando recompensa ou pelo menos um agradecimento, quem sabe até um reconhecimento. Acontece que quem faz as boas obras esperando tudo isso, faz esperando que o ser humano tenha uma atitude que não está preparado para ter. É preciso urgentemente entender que só Deus pode recompensar de forma justa qualquer boa obra, nunca os homens.

Ainda usando essa mesma lógica, Jesus ao falar sobre os escribas e fariseus afirma no evangelho de Mateus Capítulo 23, 3 que:

"Observai e fazei tudo o que os escribas e fariseus dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem."

Isto é, faça o que eu falo e não faça o que eu faço.

Esse é o famoso farisaísmo que hoje entendemos muito bem como hipocrisia. O grande problema é que todos detestam os hipócritas, mas não pensam nem meia vez antes de ser um deles. Escrever leis e definir atitudes para outras pessoas parece ser a especialidade de alguns. O problema é escrever essas leis e atitudes e agir de forma justamente contrária.

Mas Jesus ainda continua no mesmo capítulo 23 em seu versículo 4 e seguintes:

"Atam (escribas e fariseus) fardos pesados esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem removê-los sequer com o dedo. Fazem todas as suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas nos seus mantos."

Exigir que os outros façam o que eu sequer tento fazer, é muito fácil. É preciso morrer tentando, se for o caso, mas nunca deixar de fazer o certo mesmo que esse certo pareça errado. De qualquer forma, a pior escolha sempre vai ser cobrar de outras pessoas que carregam esse fardo sem nunca tentar carregar o seu peso que muitas vezes é mínimo.

De outra forma, fazer qualquer coisa esperando reconhecimento ou fazer mostrando que está fazendo pelo simples prazer te satisfazer a vaidade, pode ser um dos piores precipícios a se cair. Um daqueles bem altos e com espinhos no fundo.

As nossas boas obras, boas atitudes e orações devem ser feitas de modo mais oculto possível. Assim não alimentamos a vaidade nem o orgulho. Podemos até ficar tristes e um pouco desestimulados com a falta de reconhecimento alheio, mas isso passa. O mais importante de tudo sempre é entender que o melhor está por vir. 

O que é melhor está por vir, porque Deus é justiça. A justiça, o reconhecimento e o agradecimento vindos do ser humano de nada valem. Deus conhece os corações, e só Deus. Não devemos nunca confundir o que é bom aos homens com o que é bom a Deus.

"Ora, ouviram tudo isso os fariseus, que eram avarentos, e zombavam dele. Jesus disse-lhes: 'vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus vos conhece os corações; pois o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus.'"(Lc 16, 14-15)

Portanto, o que se conclui é que não se deve procurar a satisfação dos homens antes da satisfação de Deus. Dificilmente as duas coincidirão, entretanto, caso elas estejam em confronto, que a vontade de Deus sempre prevaleça. 

"Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a glória que é só de Deus?"(Jo 5, 44)

Que nós aprendamos a buscar, portanto, apenas a glória final que é aquela que vem de Deus, porque enquanto estivermos buscando Glória vinda dos homens estaremos cada vez mais incompletos.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Pessoas sem padrão e padrão sem pessoas.


Pessoas que seguem padrões não conseguem entender o relativismo. O problema é que as pessoas que seguem padrões hoje são cada vez mais raras. Isso porque seguir padrões hoje se tornou um crime tão hediondo que basicamente ninguém mais sabe o que é um padrão.

O que estou dizendo pode parecer estranho porque o pensamento relativista tomou conta de tudo o que existe em todos os lugares. Todos gostam de dizer que tem princípios, mas na verdade relativizam tudo. Todos têm princípios desde que esses princípios possam ser encurvados como a vara de goiabeira. Princípios elásticos é o que mais se vê por aqui.

Quando os princípios são realmente inegociáveis eles se tornam padrões e é aí que a coisa realmente funciona. Um homem que não gosta da cor vermelha não usa camisa vermelha, não tem um carro vermelho e tenta não usar objeto algum dessa cor. Um homem que repugna a ilegalidade, repugna ilegalidade de seus amigos e de seus inimigos. O homem que odeia a corrupção, odeia a corrupção de socialistas, conservadores e liberais. A questão toda está em os pratos da balança estarem equilibrados.

O que vemos é que há um relativismo total em todos os casos, para todas as situações. Aquele homem que não gosta da religião católica por causa da pompa, aceita a mesma pompa feita ao seu político de estimação. Aquele homem que detesta corrupção do partido ou do político que ele não votou, aceita a corrupção do partido e do político que ele apoia porque com certeza seria para uma boa causa. Aquele homem que detesta a censura, apoia que seus opositores sejam calados para o seu bem próprio ou para o bem da causa que pretende que seja vencedora. Isso é um escárnio. Isso é uma leviandade, uma falta de caráter que só quem entende as profundezas do relativismo consegue realmente enxergar. Os demais apenas sentem na própria pele os efeitos desse escárnio e dessa leviandade sem saber de onde vem o cheiro pútrido que sentem no ato natural de respirar.

Aquele homem que tem um padrão fixa seu olhar em uma única estrela, enquanto a terra gira freneticamente ao seu redor. Centrado em um ponto esse homem não fica tonto com tanto reviravolta que acontece ao seu lado. Está sempre equilibrado e pode perceber a real grandeza e distância das coisas.

terça-feira, 24 de abril de 2018

O militarismo e seus valores em alta.


No capítulo 3 do livro "Hereges" de Chesterton, o autor desenvolve uma ideia muito interessante, principalmente para os dias atuais nesse nosso Brasil. Aliás, é incrível como Chesterton conseguiu ser tão atual vivendo um século antes do que agora chamamos de atualidade.

Ele desenvolve uma ideia sobre o militarismo que chama bastante atenção. Quando se fala em militarismo obviamente que está se falando dos valores que o militar carrega consigo, especialmente a coragem e a disciplina.

O militarismo, segundo a tese, não estaria errado por mostrar para os homens como ser violentos, presunçosos e até belicosos. O mal do militarismo estaria justamente no contrário, ou seja, estaria em tornar boa parte dos homens muito mansos e pacifistas. A questão é saber de qual parte estamos falando. 

Que fique bem clara a diferença entre pacifistas e pacíficos. Mas a questão de Chesterton não é essa. A questão está justamente em entender que os homens que não são militares acabam se acostumando com o militarismo para protegê-los e para guerrear por eles. O militarismo acaba comprando as guerras que todos os homens deveriam tomar para si. 

A conclusão acaba sendo simples: quanto mais a sociedade se torna acovardada, mansa e pacifista ao extremo (qualquer semelhança com atualidade não é mera coincidência), o militarismo tende a crescer, justamente porque alguém precisa proteger a sociedade. Isso se torna um mal devido o fato de cada vez mais homens quererem cada vez menos resolver suas guerras pessoais. Deixam tudo para os militares e isso acaba destruindo a sociedade como um todo.

Chesterton exemplifica tal lógica quando menciona que a guarda pretoriana, aquela do império romano, se tornou muito importante e, a cada vez que os militares se tornavam mais e mais importante, a sociedade se tornava cada vez mais e mais luxuosa e débil. Se tornava mais e mais fútil. 

Portanto, o militar acaba ganhando cada vez mais poder civil na mesma proporção em que o civil vai perdendo cada vez mais as virtudes militares. Essa conclusão é aterradora quando se percebe que estamos vivendo exatamente isso. Vamos nos tornando uma sociedade cada vez mais covarde e por isso mesmo uma sociedade que cada vez mais busca o militarismo.

Os poemas antigos cantavam epicamente as armas e o poder do homem guerreiro. Hoje cantamos a proteção as baleias, o politicamente correto, quais os limites de um pai ao educar seu filho e uma tolerância libertina. 

No início desse texto falamos sobre alguns valores dos militares, especialmente a coragem e a disciplina. O que mais deixa o homem moderno perplexo não é sequer a coragem. Não é preciso ser militar para desenvolver essa coragem. O que mais chama atenção do homem moderno é a disciplina. Para perceber isso basta verificar o quão maravilhado fica um pai ao perceber a disciplina de um colégio militar onde seu filho agora vai estudar. Quando alguém busca um colégio militar não está buscando coragem, está buscando disciplina. Quando alguém se encanta com o desfile militar, não se encanta com a coragem, se encanta com a disciplina e o verdadeiro milagre da organização. A coragem é só uma consequência disso tudo. Não é exatamente isso que vemos na sociedade atual?

Assim sendo, não há qualquer necessidade de ser militar para buscar o militarismo. Se o militarismo é exaltado por sua disciplina, essa disciplina pode ser vista em vários locais e momentos na vida. Um padeiro é disciplinado quando acorda às 4 horas da manhã para conseguir deixar o pão pronto às 6. Nesse sentido o padeiro é tão militar quanto qualquer militar. A costureira precisa ser disciplinada ao exercer seu ofício caso contrário não fará um trabalho metódico suficiente e ainda corre o risco de sofrer várias agulhadas na mão. Nesse ponto a costureira é muito militar. Em ambos os casos essa disciplina é motivo de orgulho para os disciplinados e motivo de exemplo para os expectadores.

O militarismo surge de tempos em tempos ciclicamente. Quando a sociedade se enfraquece o militarismo cresce, quando a sociedade engloba os valores do militarismo e os usa, o militarismo cai em desuso e é esquecido. Ao ser esquecido a sociedade conta a se enfraquecer e o militarismo cresce.

Em qual período exatamente estamos vivendo?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O entediante e o entediado.


(Texto inspirado no livro "Hereges" de Chesterton em seus primeiros parágrafos do capítulo terceiro)

Os adjetivos entediante e entediado, que muitas vezes se tornaram não só meros adjetivos, mas verdadeiros brasões na vida de alguns, foi a forma que o poeta britânico George Gordon Byron, mais conhecido como Lorde Byron, dividiu a humanidade. É óbvio que algo tão simples, mas que demonstra a perspicácia e visão tão profunda que uma pessoa tem do ser humano, não passaria em branco nas páginas dos livros de Chesterton.

No livro "Hereges", Chesterton, logo no início do Capítulo 3, vem mostrar essa visão de mundo para o leitor e rapidamente, como é sua característica, analisa essa profundeza de pensamento e parece dizer tudo em poucas palavras. Chesterton parece conseguir esclarecer o óbvio.

Como não sou Chesterton e obviamente não tenho esse poder de síntese (na verdade acho que não tenho nenhum poder de síntese), muito menos a genialidade dele, vou ter que escrever um pouquinho mais para tentar decifrar aquele pensamento.

A ideia central de uma pessoa entediada é aquela de superficialidade, que não tem muito a oferecer para os que estão a sua volta, muito menos para a sociedade como um todo. O entediado é aquele que não consegue perceber as minúcias e os detalhes de cada ponto em específico. O entediado olha para grama e simplesmente vê a grama. O entediado não consegue olhar para a grama e definir os seus tons de verde. Se ele não consegue sequer definir tons de verde, obviamente que não vai se perguntar o porquê daqueles tons diferentes, muito menos chegar a alguma conclusão sobre quem criou aquilo. O entediado não consegue ver a beleza por trás do óbvio. Na verdade o entendiado sequer consegue ver o óbvio. É uma pessoa prática demais para ver o que está a sua frente. O entediado é aquela pessoa que deixa a vida passar à frente do seu nariz e depois de muitos anos não sabe dizer a cor do firmamento de onde viveu toda uma vida. 

O entediado só é assim por quê tudo para ele é chato e desnecessário. Tudo para ele precisa ser prático, objetivo e atingir a função que ele entende ser real. Ele não se atenta aos detalhes e não se atenta à beleza intrínseca das coisas. Não compreende que em cada ato da criação o motivo de existir revela sua beleza e sua beleza revela seu motivo e existir.

Já o entediante não é o contrário do entediado, mas sim o seu salvador. Se não fosse o entediante, o entediado nunca descobriria o quanto não percebe as belezas da criação muito menos perceberia o quanto sua vida é prática demais para ser levada a sério.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O rumo moral do Progresso.

(Texto inspirado no livro "Hereges" de Chesterton).


Porque nós gostamos sempre de contrapor o que já é conhecido com uma proposta alternativa de obter algo sobre aquilo que ninguém conhece? Em outras palavras, porque preferimos lançar-nos ao desconhecido considerando que isso é algo excelente no lugar de colocarmos tudo o que foi bom e já considerado produtivo em prática?

Com uma pergunta como essa eu não estou em momento algum colocando em xeque a dignidade ou mesmo a legitimidade do progresso. O que estou colocando em xeque é a legitimidade e a dignidade de colocar o progresso acima de qualquer coisa independente de qualquer coisa.

O que acaba acontecendo é que aquele que defende o progresso acima de tudo se torna mais dogmático que o religioso e tenta ser infalível em sua proposta. O progresso não pode ser infalível sob pena de o progressista se tornar o que ele mais abomina, ou seja, um conservador.

Vivemos em uma época em que dificilmente podemos dizer que estamos em progresso. A explicação disso é bem fácil: em outros momentos históricos as pessoas podiam até tomar decisões erradas e seguirem um caminho errado, mas estavam em concordância com o caminho a ser seguido. Nos dias atuais cada um pretende seguir um caminho e cada caminho pretende ser o certo inequivocamente. Hoje discordamos de todo tipo de direção que o outro quer tomar e cada um pretende ser o seu próprio ponto cardeal.

Por outro lado nos consideramos o povo e a época mais progressista da humanidade. Não saímos do lugar e discutimos coisas banais, mas consideramos que o movimento de ir e voltar sob o mesmo passo é progresso.

A questão toda se concentra no fato de que o progresso precisa ter um alvo e esse alvo precisa ser uma doutrina moral. Quando disparamos em direção a algo que dizemos que é o progresso, caso essa não seja a direção correta no rumo de uma doutrina moral, estaremos correndo em disparada e sem freios rumo ao precipício. Há ainda o risco de que assim que for dado o tiro para essa corrida, cada um corra em uma direção acreditando que aquela é a direção certa para o progresso. Esse é o resultado quando não se tem um foco moral.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Quem quer saber o que é bom?


(Texto inspirado nos primeiros parágrafos do livro "Hereges" de Chesterton).

Parece ser uma constatação fácil de identificar que fazemos de tudo para não falar do que é o bem, do que é bom e do que é correto. Fugimos de todas as formas desses conceitos. Falamos de tudo o que está em volta, mas evitamos ao máximo entrar no mérito da questão do que é realmente bom.

É fácil você encontrar uma pessoa que, com a melhor das intenções, fala com você sobre liberdade. É óbvio que a liberdade é algo bom, mas é preciso entender que é uma faceta do algo bom. A liberdade pode ter lados que não levam para o bem. 

Facilmente você também encontra pessoas que falam de progresso. Elas usam esse expediente para fugir da discussão do que é bom. O progresso pode ser bom, mas também pode ter uma face bem ruim.

Vamos encontrar muitas e muitas pessoas por aí que falam sobre educação, mas fogem de falar o que é algo bom. É claro que a educação é algo bom, mas é claro que a educação só pode ser algo bom quando parte do conceito de bom. Quando é usada para o mal...

O problema é que conceituar o bom é não relativizar e tomar posição sobre o assunto. Quem quer isso? O que as pessoas querem é abraçar a liberdade, mas se esquecem que é preciso conceituar uma série de coisas para conseguir chegar a essa liberdade. É preciso conceituar, inclusive, o que é liberdade. E é preciso dentro do conceito de liberdade saber se liberdade é algo bom. Para saber se algo é bom é preciso saber o que é bom. E mais uma vez eu pergunto: quem quer isso?

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Tenha um herege pra chamar de seu.


(Texto inspirado nos primeiros parágrafos do livro "Hereges" de Chesterton).

É absolutamente incrível pensar como hoje as pessoas tem um prazer quase transcendental de se dizerem heterodoxas, revolucionárias e até mesmo heréticas.

Em toda história das heresias, e não precisa ser um gênio para estudar e perceber isso, os hereges eram hereges, mas queriam ser ortodoxos. Muitas das vezes queriam ser ortodoxos até o limite do insuportável, o que os fazia ser hereges, ou dentro daquela linha tênue da semântica. Mas é fato que sempre quiseram ser ortodoxos e não heréticos. 

Esses heréticos do passado queriam tanto ser ortodoxos que às vezes chegavam a se embrenhar em meio à loucura de achar que são uma ilha de ortodoxia. Achavam que sozinhos contra todo o mundo podiam guardar a ortodoxia e acabavam caindo naquela mais baixa heresia. Faziam isso especialmente contra aquela que é a guardiã da ortodoxia. Quaisquer semelhanças com aqueles que hoje se consideram mais católicos que o próprio Papa não é mera coincidência. 

Hoje entretanto as pessoas se gabam de ser heréticas, revolucionárias, heterodoxas e fora de qualquer padrão ou qualquer linha de lógica, arrebentando aquela linha que já era tênue da semântica.

A grande dúvida que fica é o porquê de hoje as pessoas terem a intenção e fazerem tanta questão de se mostrar revoltadas, diferentes e heréticas. A impressão que dá é que a humanidade resolveu caminhar para trás e está dando passos largos em marcha ré. No lugar de melhorar e entender que cada pessoa é diferente da outra e por esse motivo cada pessoa tem necessidades diferentes das outras, ou seja, essa igualdade que tanto prezam e lutam é impossível, distante e até utópica. Esse pessoal prefere continuar insistindo na tese impossível de que precisamos de sociedades mais igualitárias. Não conseguem entender o mínimo que um gráfico pode explicar. Não conseguem entender que basta fazer a parte de baixo subir para melhorar a vida material das pessoas. No lugar preferem fazer a ponta de cima baixar, ou seja, preferem empobrecer o rico do que enriquecer o pobre.

Todo problema parece ser que o problema é o todo. Todo mundo sabe muito de pouca coisa. Há especialistas até para unha encravada do dedão esquerdo, mas você é criticado e chamado de lunático-fanático-religioso quando resolve juntar todas essas especialidades divididas de forma infinitesimal e perceber que a universalidade é perfeita e por isso só pode ser divina. Isso é a ortodoxia.

Seja como for, esse revolucionário que descrevemos acima é o nosso afamado herético moderno que levou a sua heresia chamada revolução ao patamar de sistema. O herético moderno nada mais é do que aquele que o é e faz questão de dizer que o é. É aquele que gosta de ser e faz questão de dizer que é herético e detesta a ortodoxia. É aquele que faz questão de ir contra a lógica e o bom senso e se acha acima da média por isso.

Enquanto você lia esse texto você pensou em alguém? Pois é, a intenção era essa mesmo. Adote o seu herege eu leve-o à ortodoxia. Caso não consiga entregue a Deus as raivas que vai passar como mortificação. De qualquer forma você ganha.