Pois é exatamente essa a sensação que
fica com a sugestão de um "Código de Ética" para os ministros do
Supremo. À primeira vista, parece um avanço, mas, se olharmos de perto, a ideia
é um atestado de que algo muito sério quebrou no motor da nossa República (ou da
República de outros por aí, se você se sentir ofendido com ter algo com isso).
Para começar, a nossa Constituição já
é bem exigente: para sentar naquela cadeira, o candidato precisa ter
"notável saber jurídico" e "reputação ilibada". Isso
significa que o filtro de entrada deveria ser tão fino que seria impossível
passar por ele alguém que sequer cogitasse ignorar as regras básicas do jogo.
Se precisamos de um código extra, estamos admitindo que o filtro falhou, ou que
a tal "reputação ilibada" virou apenas um carimbo burocrático (claro
que estou falando de forma hipotética e vocês entenderam isso).
Além disso, já existe uma lei para
todos os juízes do país, a famosa LOMAN. Por que criar regras exclusivas para
quem manda mais? Se a lei geral serve para o juiz da pequena cidade do
interior, por que não serviria para quem está no topo? Criar um "clube de
ética privativo" dá a entender que eles estão em um patamar onde as regras
comuns não os alcançam (de novo é hipotético, por favor, não é gente.).
Mas o nó cego é outro: quem vai
fiscalizar? Em uma democracia saudável, o "Código de Ética" de um
ministro do Supremo deveria ser o Senado Federal. É o Senado quem tem o poder,
e o dever, de ser o freio de arrumação. Se um ministro desvia do caminho, o
contrapeso deveria vir de lá. Como o Senado resolveu tirar férias dessa
responsabilidade, o Supremo tenta preencher o vazio com uma autoridade interna.
Mas sejamos honestos: quem realmente puniria um ministro por quebrar esse novo
código? O próprio tribunal? É o clássico caso do vigia que vigia a si mesmo.
No fim das contas, esse código de
ética soa como uma "cortina de ferro" intelectual. É um movimento
para as câmeras, uma forma de dizer ao povo: "Vejam, nós temos
limites!". Mas limites de papel não seguram vontades de ferro. A ética de
quem ocupa o cargo mais importante do Judiciário deveria ser imanente, algo que
já vem no DNA da função. Se você precisa escrever em um mural que o juiz não
pode ser jogador, é porque o jogo já está perigosamente bagunçado.
O maior limitador do poder não é uma
lista de boas intenções escrita em um papel timbrado; é o equilíbrio real entre
quem manda e quem fiscaliza. Sem isso, qualquer código de ética é apenas um
belo verniz sobre uma estrutura que está clamando por reparos reais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário