Agora, do outro lado do corredor,
Carl Schmitt dá uma risada irônica. Para Schmitt, a Constituição não é uma
máquina, é uma decisão política; e quem decide de verdade não é o técnico, mas
o soberano — aquele que dá a última palavra no momento do aperto.
No Brasil, resolvemos fazer um
"churrasco" dessas ideias e o resultado é um exótico prato
institucional: vestimos o juiz com a toga técnica de Kelsen, mas entregamos a
ele o cetro absoluto de Schmitt. E ainda queremos que dê certo.
O problema é que, nessa mistura, o
guardião acabou virando o dono da casa. É aqui que esbarramos no que podemos
chamar de poder ilimitado do intérprete, esse fenômeno onde o sentido das
palavras na página parece ter menos importância do que o humor ou a vontade de
quem as lê.
Quando o Supremo decide que a
Constituição diz algo que ninguém mais consegue ler ali, ou que o texto mudou
sem que ninguém tenha alterado uma vírgula sequer, entramos em um terreno
perigoso, movediço eu diria. O intérprete deixa de ser o servidor da lei para
se tornar o seu mestre. Em vez de a Constituição limitar o poder, ela passa a
ser o elástico que o poder estica conforme a conveniência da vez.
Essa autocracia do sentido cria uma
situação curiosa, para não dizer trágica: os outros Poderes, eleitos pelo voto
(coitados), parecem crianças jogando bola no quintal de um vizinho ranzinza que
pode confiscar a bola a qualquer momento, que raiva eu tinha disso.
Se o tribunal define o alcance da sua
própria competência sem prestar contas a ninguém, a separação de poderes vira
uma peça de teatro onde o roteiro é improvisado pela última instância.
No fim das contas, a aula de Direito
Constitucional começa a parecer menos uma ciência e mais uma crônica de
suspense, onde a segurança jurídica é a primeira vítima. O futuro da nossa
liberdade acaba dependendo não mais da robustez do papel, mas da interpretação
soberana de quem, no topo da pirâmide, decidiu que a última palavra é, por
definição, a única que importa. É o triunfo da vontade sobre a norma, com um
elegante carimbo oficial.

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