segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O Soberano em movimento.


Andar leva aonde e serve para quê? À primeira vista, o ato de colocar um pé à frente do outro parece um gesto banal, quase invisível. Mas a história nos ensina que, quando o caminhar ganha um propósito, ele se torna a ferramenta mais temida pelos poderosos.

Em 1930, Gandhi caminhou 390 quilômetros e, pelo caminho, foi amealhando milhares de almas que perderam o medo e decidiram que era hora de apressar a independência da Índia. Em 1965, Martin Luther King Jr. precisou de três tentativas e muita resiliência para vencer os 87 quilômetros entre Selma e Montgomery, forçando um presidente americano a dobrar os joelhos e mudar as leis raciais.

Do ponto de vista da Teoria do Poder, essas jornadas provam uma verdade incômoda para muitos: a legitimidade real não mora exclusivamente nos tribunais, sejam eles Supremos ou não, nem nos gabinetes que se julgam intocáveis. A força de fato reside na capacidade de mobilização orgânica. É o sentimento constitucional do povo que deve se impor ao governo, e jamais o contrário. Essas marchas são a tradução física e pulsante do "Nós, o povo" que abre a Constituição americana, ou do nosso próprio constitucional Artigo 1º, que sentencia sem rodeios: todo o poder emana do povo.

Quando o cidadão deixa a inércia e ocupa a estrada, ele está avisando ao Estado que o soberano saiu da paralisia. É o direito sagrado de lembrar a todos que existimos e que não somos apenas espectadores de um jogo de cartas marcadas. É verdade que, muitas vezes, precisamos de um ano eleitoral ou de um rosto político para dar o primeiro passo, mas antes assim do que o silêncio absoluto. Quem se assusta e tenta barrar pessoas que apenas caminham pacificamente demonstra um medo profundo de algo muito maior. E, se há esse medo, é provável que existam motivos de sobra para tê-lo.

Tentar impedir esse caminhar foi a estratégia usada contra Martin Luther King, que só venceu após uma repressão violenta. Mas a história costuma cobrar caro de quem tenta bloquear sua marcha. Essas caminhadas são a prova de que, mesmo sob regimes de força ou sistemas judiciais hipertrofiados, onde os freios e contrapesos oficiais parecem ter enferrujado ou parado de funcionar, a movimentação orgânica do povo continua sendo o único contrapeso real. Quando o chão treme sob os pés de quem caminha, a balança do poder, por mais desequilibrada que esteja, finalmente começa a retornar ao seu eixo.