terça-feira, 2 de junho de 2026

O crachá burocrático do CV e PCC.

Há declarações políticas que não servem para explicar a realidade, mas para confessar um crime. Quando o governo dos Estados Unidos decidiu atualizar o crachá burocrático do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital, elevando-os ao status oficial de organizações terroristas, a diplomacia internacional apenas carimbou o óbvio. Afinal, quem decapita rivais, incendeia ônibus e sitia cidades não está exatamente praticando comércio informal. A medida, dentro da lei americana, serve para caçar ativos, congelar contas e fechar as fronteiras do mundo para os barões do crime.

O que ninguém esperava, ou talvez, no fundo (não tão fundo assim), todos já soubéssemos, era a reação em cadeia que o anúncio provocaria nos salões acarpetados de Brasília e nos gabinetes da esquerda nacional. Uma sinfonia de lamentações e advertências apocalípticas começou a ecoar, partindo de mandatários e burocratas de vários escalões. O tom não foi de celebração pelo cerco ao crime, mas de desespero.

O catálogo de desculpas desceu ao nível do surrealismo. Bradaram as autoridades que a classificação americana vai "afetar o PIX". Fica a pergunta incômoda: desde quando a engrenagem do nosso sistema monetário depende da saúde financeira de facções criminosas para continuar girando? Avisaram também que a medida "prejudicará as empresas e a economia". Ora, se uma sanção contra cartéis de drogas quebra empresas legalmente constituídas, a linha que separa o PIB nacional do livro de contabilidade do tráfico já não é uma fronteira, mas uma ficção jurídica.

Mas o ápice do cinismo ainda estava por vir, blindado pela empáfia de quem veste toga ou porta carteira funcional. Uma magistrada, em entrevista que entrará para os anais da desorientação institucional, apressou-se em alertar, em tom de lamentação técnica, que a decisão americana "já fez o preço da cocaína aumentar". É difícil saber se o comentário foi um diagnóstico de mercado ou... bom, deixa pra lá. Desde quando o encarecimento do quilo da droga é uma tragédia nacional? O desejo oculto era de que o entorpecente continuasse barato e acessível para garantir a paz social dos viciados e o lucro dos distribuidores?

Para arrematar o espetáculo da hipocrisia, um veterano membro do Ministério Público veio a público jactar-se de que "combate essas organizações há 25 anos" e que a intromissão estrangeira "só vai atrapalhar". É uma lógica fascinante: em um quarto de século sob a sua vigilância, o crime organizado cresceu, expandiu territórios, comprou frotas, infiltrou-se na política e transformou o país em um entreposto global do tráfico. O plano deu tão errado que o burocrata agora recusa ajuda externa para não melindrar o seu próprio histórico de fracassos bem-sucedidos? É só uma dúvida mesmo.

Essas reações não são apenas tolas; elas são reveladoras. Ao tentarem defender o Brasil de uma suposta afronta à soberania (que é do povo e não dos políticos ou dos criminosos), as autoridades nacionais acabaram entregando o diagnóstico que tanto tentavam esconder. Quando o Estado se levanta para advertir que sufocar o crime organizado vai colapsar a economia, o PIX e o comércio, ele não está defendendo o cidadão. Está admitindo, em alto e bom som, a sua dependência umbilical da criminalidade.

O nome disso não é complexidade geopolítica. É Narcoestado. É a trágica constatação de que as instituições já não combatem o monstro por uma razão muito simples: aprenderam a viver de suas sobras e a governar sob a sua sombra. No teatro do absurdo nacional, os discursos oficiais deixaram no ar o pior dos vereditos: o de que, para Brasília, o verdadeiro terrorismo é deixar o crime sem fundos.


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