Há declarações políticas que não
servem para explicar a realidade, mas para confessar um crime. Quando o governo
dos Estados Unidos decidiu atualizar o crachá burocrático do Comando Vermelho e
do Primeiro Comando da Capital, elevando-os ao status oficial de
organizações terroristas, a diplomacia internacional apenas carimbou o óbvio.
Afinal, quem decapita rivais, incendeia ônibus e sitia cidades não está
exatamente praticando comércio informal. A medida, dentro da lei americana,
serve para caçar ativos, congelar contas e fechar as fronteiras do mundo para
os barões do crime.
O que ninguém esperava, ou talvez, no
fundo (não tão fundo assim), todos já soubéssemos, era a reação em cadeia que o
anúncio provocaria nos salões acarpetados de Brasília e nos gabinetes da
esquerda nacional. Uma sinfonia de lamentações e advertências apocalípticas
começou a ecoar, partindo de mandatários e burocratas de vários escalões. O tom
não foi de celebração pelo cerco ao crime, mas de desespero.
O catálogo de desculpas desceu ao
nível do surrealismo. Bradaram as autoridades que a classificação americana vai
"afetar o PIX". Fica a pergunta incômoda: desde quando a engrenagem
do nosso sistema monetário depende da saúde financeira de facções criminosas
para continuar girando? Avisaram também que a medida "prejudicará as
empresas e a economia". Ora, se uma sanção contra cartéis de drogas quebra
empresas legalmente constituídas, a linha que separa o PIB nacional do livro de
contabilidade do tráfico já não é uma fronteira, mas uma ficção jurídica.
Mas o ápice do cinismo ainda estava
por vir, blindado pela empáfia de quem veste toga ou porta carteira funcional.
Uma magistrada, em entrevista que entrará para os anais da desorientação
institucional, apressou-se em alertar, em tom de lamentação técnica, que a
decisão americana "já fez o preço da cocaína aumentar". É difícil
saber se o comentário foi um diagnóstico de mercado ou... bom, deixa pra lá.
Desde quando o encarecimento do quilo da droga é uma tragédia nacional? O
desejo oculto era de que o entorpecente continuasse barato e acessível para
garantir a paz social dos viciados e o lucro dos distribuidores?
Para arrematar o espetáculo da
hipocrisia, um veterano membro do Ministério Público veio a público jactar-se
de que "combate essas organizações há 25 anos" e que a intromissão
estrangeira "só vai atrapalhar". É uma lógica fascinante: em um
quarto de século sob a sua vigilância, o crime organizado cresceu, expandiu
territórios, comprou frotas, infiltrou-se na política e transformou o país em
um entreposto global do tráfico. O plano deu tão errado que o burocrata agora
recusa ajuda externa para não melindrar o seu próprio histórico de fracassos
bem-sucedidos? É só uma dúvida mesmo.
Essas reações não são apenas tolas;
elas são reveladoras. Ao tentarem defender o Brasil de uma suposta afronta à
soberania (que é do povo e não dos políticos ou dos criminosos), as autoridades
nacionais acabaram entregando o diagnóstico que tanto tentavam esconder. Quando
o Estado se levanta para advertir que sufocar o crime organizado vai colapsar a
economia, o PIX e o comércio, ele não está defendendo o cidadão. Está admitindo,
em alto e bom som, a sua dependência umbilical da criminalidade.
O nome disso não é complexidade
geopolítica. É Narcoestado. É a trágica constatação de que as instituições já
não combatem o monstro por uma razão muito simples: aprenderam a viver de suas
sobras e a governar sob a sua sombra. No teatro do absurdo nacional, os
discursos oficiais deixaram no ar o pior dos vereditos: o de que, para
Brasília, o verdadeiro terrorismo é deixar o crime sem fundos.
