quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Entrevista com Irmã Carmelita sobre o significado da clausura.


Presas pelo amor a Deus, à Igreja, e em oração contínua pelos nossos irmãos
Entrevista com carmelita descalça, Irmã Maria Teresa de Jesus, ocd
Por Thacio Siqueira

BRASíLIA, 25 de Janeiro de 2013 (Zenit.org) - O mundo as vê como loucas, a sua “loucura”, porém, é o coração da Igreja. As suas orações sustentam e dão vida à Igreja de Cristo. São as esposas amadas do Esposo. Essas são as carmelitas. Para entrar nesse mundo desconhecido por muitos católicos, ZENIT conversou com a Irmã Maria Teresa de Jesus, ocd, do carmelo da Sagrada Família em Pouso Alegre (MG).
Publicamos a entrevista a seguir:

 ZENIT: O que faz com que uma pessoa entre na vida monástica? Qual o sentido da vida monástica hoje?

Irmã Maria: Uma pessoa pode procurar a vida monástica por cansaço do barulho do mundo ou pela busca de um refúgio. São motivos que devem ser retificados ao longo da caminhada inicial da pessoa, pois do contrário, ela não suportará este tipo de vida. O que deve mover uma pessoa – a única coisa que lhe dá base sólida para viver num mosteiro cristão –  é um grande amor: um imenso amor por Deus e pelo ser humano, pois o sentido da vida monástica, hoje e sempre, é a doação de si a Deus e aos irmãos, na vida de oração, silêncio, comunhão fraterna e abnegação evangélica. Se uma pessoa não crê nestes valores e na comunhão dos santos, pela qual seus atos, em união a Cristo, podem ajudar a toda a humanidade, sua vida não terá sentido. Monástico, mosteiro, derivam da palavra grega monos, que significa um, único. É a busca do “único necessário”, do qual Jesus nos fala em Lc 10,42.

ZENIT: Fale-nos um pouco do seu mosteiro.

Irmã Maria: Nosso Mosteiro pertence à Ordem da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, família religiosa que mergulha suas raízes na Bíblia com o Profeta Elias e na tradição que viu nascer sua Regra destinada aos primeiros ermitães do Monte Carmelo. Seu carisma chega à maturidade com Teresa de Jesus e João da Cruz, os dois doutores da Igreja, e dá frutos abundantes de santidade em nossos dias. A tradição alimentada por esta longa experiência mística constitui o patrimônio pedagógico que caracteriza o Carmelo. A presença da Virgem Maria, Rainha, Mãe e Irmã dos (das) Carmelitas impregna totalmente  a vida carmelitana, e confere uma marca mariana particular à contemplação e à comunhão fraterna, a abnegação evangélica e ao espírito apostólico. Nosso lema é :-“Carmelus totus marianus est” - O Carmelo é todo de Maria”.

Nosso mosteiro, o Carmelo da Sagrada Família, situado em Pouso Alegre, MG, foi fundado em 26/10/1943, pela Serva de Deus Maria Imaculada da Ssma. Trindade, em Processo de Canonização, e por D. Delfim Ribeiro Guedes, na época, Cônego, e depois, Bispo de Leopoldina, MG. Portanto, neste ano, completamos 70 anos de existência. Uma existência muito simples, marcada pela fé e pelo amor fraternal – única coisa que nossa fundadora –  chamada por nós e pelos que a conheceram de “Mãezinha” –, pediu a Deus no dia de sua fundação. Procuramos viver o carisma teresiano-sanjusanista em profunda comunhão com a Igreja e a humanidade, em suas necessidades, lutas, alegrias e esperanças. Nosso Carmelo conta com 22 Irmãs enclausuradas e quatro Irmãs Externas, de  87 a 22 anos de idade. Vivemos da Providência Divina, através de doações espontâneas de algumas pessoas e dos trabalhos feitos pelas Irmãs, como paramentos, alfaias, velas e outros trabalhos artesanais, e pães, biscoitos, roscas, e panetones.

ZENIT: Para o mundo, vocês estão presas e estão perdendo a vida. É assim mesmo?

Irmã Maria: Sim! Presas pelo amor a Deus, à Igreja, e em oração contínua pelos nossos irmãos, e perdendo a vida no sentido evangélico de “quem quiser salvar sua vida, vai perdê-la, mas quem perdê-la por causa de Cristo, vai achá-la.” (Cf. Mt 10, 39)

Assim como São João, no prólogo de seu Evangelho, diz que a Luz veio ao mundo, mas não foi compreendida, da mesma forma temos consciência de que o mundo não entende nossa maneira de viver, pois geralmente carece de fé, e como entender – sem fé –, que pessoas “normais”, jovens muitas vezes inteligentes, bonitas e saudáveis queiram enclausurar-se e viver somente para Deus, sem se casar e sem desenvolver nenhuma atividade beneficente ou produtiva (em sentido material, quantitativo)? Somos conscientes de que muitas pessoas nos classificam como loucas, ou no mínimo, neuróticas. Mas é uma feliz “loucura”: a de vender tudo para lucrar a Pérola Preciosa, o Tesouro Escondido: o próprio Deus, e ter a graça de reviver em nós o Mistério pascal de Cristo, com Ele, Nele e por Ele.

ZENIT: O que tem significado Bento XVI para a espiritualidade monacal?

Irmã Maria: Nosso querido e amado Papa tem um grande sentido para nós, por ser o Cristo visível, o nosso Pastor. Mais importante que trazer em seu nome a memória do pai do monaquismo ocidental – São Bento – ele é uma pessoa que aponta constantemente para o “monos” referido acima, o Único necessário: Jesus Cristo.  Aponta para as feridas do nosso tempo  - a nível pessoal e coletivo -, e para a única maneira de saná-las: assumindo o projeto de vida que Cristo veio nos ensinar. Repete-nos sempre que Ele,Jesus, é um “ser-para-os-outros” e que, vivendo identificados com Cristo é que seremos testemunhas de que o amor verdadeiro é possível, e que ele tem a palavra final.

ZENIT: A vida de oração é muito complicada?

Irmã Maria: A vida de oração é tão simples quanto respirar. A vida de oração é um retornar à Fonte de nosso ser, e viver depende Dela, conectada a Ela, bebendo Dela. É ter consciência de que Deus habita em nós e viver cada instante, cada atividade com Ele. A coisa se complica quando deixamos que o egoísmo tome posse de nós, mascare nossos desejos de dominação e posse, e faça com que a “oração” seja um olhar para nós mesmos e nosso pequeno horizonte, em vez de ter a consciência e a alegria de sabermos que o olhar de Deus pousa constantemente sobre nós e vivermos deste Olhar.

ZENIT: Há paz detrás dessas grades ou muros?

Irmã Maria: Edith Stein, filósofa judia, convertida ao Catolicismo e depois, monja carmelita, em suas cartas sempre fala e deseja repartir o que ela chama de “paz conventual”. É a “paz que ultrapassa todo pensamento”, como diz São Paulo, e que, de forma invisível, irriga o mundo. Sim, aqui há paz, mas desde que busquemos em tudo a vontade de Deus e, como Jesus, ela seja o nosso alimento.

ZENIT: Qual é a essência de um consagrado?

Irmã Maria: O amor, porque Deus é Amor, e Ele nos amou primeiro. A essência da consagração é o mesmo movimento de doação de Deus por cada um de nós: assim como Ele nos amou, e se entregou por nós, assim procuramos amá-Lo e entregar-nos a Ele: totalmente.

ZENIT: Vocês fazem algum trabalho apostólico? Como se preparam para a JMJ 2013?

Irmã Maria: De forma externa, não. Nosso trabalho apostólico consiste essencialmente na oração. Santa Teresinha dizia: “No coração da Igreja, minha Mãe, serei o amor!”Isto resume nosso apostolado. Da mesma forma como o coração bombeia o sangue por todo o organismo, da mesma forma como uma central hidrelétrica distribui energia por quilômetros, assim é a vida consagrada contemplativa no mundo. Desde o início, vibramos com a JMJ no Brasil, e ela está constantemente presente em nossa oração e sacrifícios.

ZENIT: Qual é a espiritualidade que vocês seguem?

Irmã Maria: A espiritualidade carmelitana-teresiana-sanjuanista, que busca equilibrar a vida eremítica e comunitária, alternando tempos de oração silenciosa e individual com a comunitária, e o trabalho silencioso (é silêncio o dia todo), com os momentos diários de recreio ( dois únicos momentos em que podemos conversar, todas juntas:- uma hora após o almoço e uma hora após o jantar, sempre tendo em mãos um trabalhinho manual.)  Uma espiritualidade que busca a união com Deus, vivendo em amizade com Cristo e intimidade com Maria Santíssima, onde oração e imolação fundem-se vivamente com um grande amor à Igreja, como dizem nossas Constituições.

ZENIT: Como os leitores de ZENIT podem ajudar o mosteiro de vocês?

Irmã Maria: Rezando por nós, para que sejamos fiéis ao nosso carisma. E, se puderem e quiserem, ajudando-nos financeiramente. Banco do Brasil - Ag: 0368-9 - C/C: 13.745-6.

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