Dizem que George Orwell não escreveu um manual de instruções, mas sim um aviso. O problema é que o governo parece ter lido 1984 e pensado: "Interessante, mas falta tecnologia e um pouco mais de burocratização". Estamos vivendo aquela distopia charmosa em que o "Grande Irmão" não precisa mais de câmeras escondidas atrás dos quadros; nós mesmos compramos as câmeras, instalamos nos nossos bolsos e ainda pagamos mensalidade para manter o sistema funcionando.
A nova obsessão da temporada é a tal "regulação das redes sociais". O discurso é sempre angelical: proteger a democracia, combater a desinformação e garantir que a internet seja um jardim de infância seguro e vigiado. É quase comovente. Os mesmos governos que mal conseguem tapar um buraco na rua ou entregar uma carta no prazo agora se sentem prontos para serem os editores-chefes da realidade. Querem criar o "Ministério da Verdade" com o selo oficial da República, onde o que é verdade e o que é mentira será decidido por um comitê de burocratas que, provavelmente, ainda pedem ajuda aos sobrinhos para formatar um PDF.
E por que esse desespero súbito? Porque a velha imprensa, aquela que um dia foi chamada de "voz do povo", acabou se mudando para o palácio. Entre um jantar e outro com as autoridades, a grande mídia virou uma espécie de mestre de cerimônias do poder, servindo as notícias com o tempero que o governo gosta. O povo, cansado de ser tratado como uma plateia que só aplaude, resolveu subir no palco.
As redes sociais, com todo o seu caos, barulho e dancinhas de gosto duvidoso, operaram um milagre que a imprensa tradicional esqueceu como se faz: deram voz à vida real. É o cidadão comum, aquele que não tem crachá de jornalista mas tem olhos, mostrando o
que o governo quer esconder. E é aí que mora o perigo para os donos do poder. Um povo que fala entre si, sem o filtro da "imprensa oficial", é um povo incontrolável.
A regulação é o último suspiro de quem quer colocar o gênio de volta na lâmpada. É a tentativa de substituir o barulho livre da praça pública pelo silêncio higienizado dos corredores de Brasília. Querem que você continue acreditando que 2 + 2 são 5, desde que o decreto seja assinado em papel timbrado.
No fim das contas, a ironia é suprema: no mundo de Orwell, o crime era o "pensamento". No nosso, o crime é o "compartilhamento". Se o governo conseguir o que quer, em breve teremos que pedir permissão para a Novilíngua oficial antes de postar que o rei está nu. Mas, enquanto a rede estiver no ar, a distopia terá que lidar com o fato de que a voz real não aceita edição.
