segunda-feira, 12 de junho de 2017

Guerra justa e o justiceiro social.


Dentro do estudo sobre o tema da guerra justa, que Santo Agostinho tão brilhantemente iniciou e que Santo Tomás de Aquino mais brilhantemente ainda deu continuidade, existe uma pequena objeção que parecia simples para esses dois Santos, mas que hoje, devido a infantilidade que temos ao conhecer e estudar a nossa fé católica, tornamos tal objeção algo praticamente intransponível. Essa objeção é a de que a guerra justa cristã parece estar frontal choque com o preceito natural e divino de não matar.

É relativamente simples explicar que uma coisa não está oposta a outra. A primeira coisa é entender que o princípio cristão de não matar está ligado ao assassinato de inocente e não à retribuição justa e reparadora por um mal cometido, desde que essa Retribuição não venha de uma única pessoa particularmente, porque se assim o fosse aconteceria por vingança.  Eis aí a grande falácia que o cinema usa para criar tantos heróis que usam dessa Justiça particular no intuito de retribuir a punição necessária a mal causado. Mas nesse caso estamos falando de ficção. O problema é quando isso ultrapassa as telas de cinema e as revistas em quadrinhos.

Sem dúvida alguma, culpa e dolo exigem uma Justiça reparadora equilibrada e proporcional, mas essa Justiça reparadora deve vir de uma autoridade pública que deve ser legítima o suficiente para igualmente causar uma agressão legítima e uma defesa que retribua o mal causado mal.

Nesse ponto chegamos à necessidade de existir um ente público chamado estado que pode aclamar a si essa responsabilidade, desde que legítimo. O ente particular e/ou privado só poderia se auto aclamar responsável por essa retribuição ao mal causado no caso de um ente público ser absolutamente ilegítimo e totalmente irrecuperável, permanentemente ou a tempo de resolver a questão a contento.

Voltando à questão do cinema, é muitíssimo interessante verificar quantos heróis, com poderes sobrenaturais ou não, chamam a si essa responsabilidade de retribuir uma oposição ao mal causado. Quem os elege para tal tarefa são eles mesmos privadamente. E por que fazem isso? Dentro do universo ficcional a resposta está na ineficiência do ente público em retribuir de forma satisfatória o mal causado. Em nosso mundo real o sucesso que esses heróis fazem está no sentimento coletivo de que o ente público realmente não está conseguindo resolver o problema que deveria ser legítimo a ele resolver. A ideia é que se o ente público não consegue resolver, então um particular resolverá. E nesse ponto caímos exatamente na questão que acima foi colocada: há legitimidade ou não em fazer justiça com as próprias mãos? Veja bem que não estamos falando em legítima defesa, nesse ponto não há dúvida de quê matar o agente da ameaça é algo absolutamente legítimo. A situação colocada é justamente sair ao encontro daqueles que causam o mal e ser o agente julgador e executor de sentenças ao mesmo tempo, ou seja, fazer justiça social com as próprias mãos.

Trata-se de um assunto espinhoso nos dias atuais, isso porque a sociedade como um todo não mais consegue entender que existe uma guerra justa. A guerra justa busca justamente trazer de volta a paz perdida ou chegar à paz desejada. Enfim, a ideia justamente é chegar à paz. As perguntas que ficam são simples: temos estados nacionais realmente legítimos e empenhados nesse propósito? Se não temos, existe alguma outra entidade que garante legitimidade e que possa desempenhar esse papel? Se a resposta é não para as duas perguntas anteriores, então está justificada a justiça social com as próprias mãos?

Certamente que a ideia deste texto não é afirmar nada nem trazer receita de bolo. Aqui não pretendi trazer nenhuma certeza, mas na verdade minha pretensão foi destruir as certezas falaciosas que diariamente pretendem nos colocar na cabeça e gorros abaixo.

Nenhum comentário: